terça-feira, 2 de março de 2010

A POBREZA E A METODOLOGIA DE CLODOMIR DE MORAIS - PARTE 4

Irmão Rafael Jácome
        No ano de 2000 tive a oportunidade de ser aprovado para participar de um dos programas subsidiados pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação – ONU/FAO, na oportunidade conheci o Professor Clodomir Santos de Morais, pernambucano, sociólogo, participou das Ligas dos Camponeses e fundou o Instituto de Apoio Técnico aos Países do Terceiro Mundo – IATTERMUND, desenvolveu a teoria da capacitação em larga escala (Capacitação Massiva), que fornece a base para um método educacional que capacita os pobres para se organizarem e gerenciarem suas próprias empresas. Tive a o prazer de participar de uma das equipes do Prof. Clodomir por quase 4 anos. Foi amigo e contemporâneo de Paulo Freire e juntos debateram muito sobre a causa da educação e especialmente da pobreza. Como citamos antes (PARTE 3), a Teologia da Libertação empregava o método ver, julgar e agir criado por Paulo Freire e que norteava a consciência crítica dos defensores da libertação, no confronto da realidade que lhes apresentavam.
        Segundo SHOROJOVA E.V. em “El problema de Conciencia – Editorial Grijalbo S.A., México, 1963, p. 54, atesta: “Sendo um processo social por sua natureza, a consciência é, ao mesmo tempo, a consciência do homem como indivíduo. A natureza e a sociedade se refletem na mente humana tanto em forma de consciência individual, como nas diversas formas da consciência social. A consciência individual do homem abarca os processos de apreensão da realidade por uma pessoa determinada e a atividade consciente do homem em um e outro tempo. A consciência social é a compreensão da realidade por uma sociedade ou classe determinada e as peculiaridades da atividade consciente da sociedade em seu conjunto ou de grupos sociais isolados. A consciência social reflete a existência social em forma de ideologia e psicologia social. O sentido vital da consciência não estaria justificado se não estivesse vinculado à conduta real do homem, à sua atividade. Assim, pois, para compreender a natureza da consciência e as peculiaridades específicas da atividade reflexa do homem deve-se caracterizar o nexo da consciência com a atividade.”
        Clodomir Santos de Morais em sua Teoria da Organização considera em numero de  três os graus de consciência dos grupos sociais: o grau de Consciência Ingênua, o grau de Consciência Crítica e o grau de Consciência Organizativa. Com a Consciência Ingênua os indivíduos dão-se conta de seus problemas ou de sua miséria, porém não chegam a identificar os fatores causantes. Atribuem ao fatalismo, chegam a imaginar que os pecados dos homens ou o destino de cada um determina sua miséria. Nestes casos, muitos dos grupos humanos buscam a solução de seus problemas na morte, na vida eterna ou na resignação sistemática. Eles, geralmente, estão inseridos na Economia Natural de produção de valores de uso; No segundo caso, a Consciência Crítica os indivíduos já identificam os fatores responsáveis por seus problemas, sua miséria, identificam a má distribuição dos recursos (terra, capital, etc). Ela nasce com a Economia Mercantil e alcança um amplo desenvolvimento com o próprio crescimento da Manufatura e da Indústria na fase inicial do Capitalismo. É em seu marco que aparecem as concepções de lutas de classes e da Revolução Proletária, cujas tentativas infrutíferas devem-se à carência de organização adequada; No terceiro caso, aparece a Consciência Organizativa onde se concebe a teoria e o planejamento sistemático da organização, que é gerada na existência social organizada, real e concreta, ou seja, na estrutura organizativa da empresa de produção de bens e/ou de serviços. O público-objetivo de sua Metodologia da Capacitação são as pessoas que estão as margens do processo produtivo, ou seja, os assim denominados “excluídos sociais”.
        Fundamentalmente os dois divergiram em seus métodos. A professora Jacinta Castelo Branco Correia em seu artigo sobre o título - De Paulo Freire a Clodomir Santos de Morais: Da Consciência Crítica a Consciência Organizativa -, afirma: “A consciência crítica baseada no diálogo, segundo a proposta do educador Paulo Freire, é incapaz por si mesma, de transceder a etapa dialógica e gerar aquelas mudanças que são mais exigidas pela sociedade e pelos pobres e pelos excluídos “aqui e agora” . Do que a pessoa tem que ter clara consciência é que a metodologia de Paulo Freire, no final das contas, não nos proviu com uma metodologia objetiva (isto é, uma metodologia ativamente comprometida com a realidade objetiva), senão que, baseando-se no diálogo, no principal se manteve dentro do âmbito da socialização do conhecimento acadêmico, mediado por um processo educativo libertador. É por essa razão que, com Freire, o “o que fazer” e o “como fazê-lo”, sempre, ou bem, permaneceram inarticulados, ou foram explicados diferentemente por cada extensionista, sob os ditados de suas próprias limitações e seus antecedentes experienciais pessoais. O próprio Paulo Freire, sem rodeios, reconhecia que o “como fazê-lo” era algo que estava por descobrir, por quem assumisse o desafio do mestre-“aprendiz” (learnrer), em uma postura dialogal. No entanto, o problema fundamental consiste no fato de que o campesinato, acostumado como está a intervenções paternalista e a relações assistencialistas, por razões de uma longa história de relações de dominação, permanece enraizado em sua crença de que será inferior para sempre e “incapaz”; por conseguinte, recusa, se não através de palavras, ou em feitos, participar em ações baseadas precisamente no tipo de análise dialógica proposto por Paulo Freire. Sobre este mesmo tema, Freire comenta, em seu precoce “Extensão ou Comunicação?”, que “resulta natural que eles (os oprimidos) deveriam mostrar uma aversão extrema a dialogar. Tampouco é surpreendente que digam ao educador, depois de apenas quinze ou vinte minutos de participação ativa: “Desculpe-nos, senhor, nós-os-que-não-sabemos deveríamos ficar calados e escutar o que você sabe”. (FREIRE,1974:121).
        Nos finais dos anos 1980, aumentaram os primeiros experimentos do Método de Capacitação Massiva, chamado Laboratórios Organizacionais, sistematizados por Clodomir Santos de Morais. Este método permite em termos reais, o tipo de diálogo recomendado por Paulo Freire, em que se começa a partir do conhecimento organizativo já incorporado na comunidade. A comunidade no Laboratório Organizacional adquire destrezas e habilidades que permitem os participantes abordar formas complexas de organização. Nele, o processo de capacitação busca a exposição total e incondicional da “empresa objeto” do “sujeito coletivo”. Todo processo de educação sobre organização deve estar alicerçado na apropriação por parte do grupo sujeito de sua situação de maneira que desenvolva mudanças de conduta e atitudes inerentes à superação de níveis de consciência e autoestima, identidade, posse, autogoverno e gestão. Para o que há de exercer sua autonomia e, ao mesmo tempo, interdepender em resposta à necessidade humana de complementação e integração. Citando ainda a Professora Jacinta: “A compreensão de Clodomir vai muito mais além dos parâmetros da criação de conhecimento autônomo, na tradição da “conscientização” e da “educação popular”. Com entusiasmo o próprio Freire afirma: “A consciência crítica”, a educação popular pode, como o Duque de Iork, levar as suas tropas ao “cimo das colinas”, porém, sem “consciência organizativa” que a complemente e lhe ofereça verdadeira autonomia e garras, essas tropas logo despencam até a base dessa colina. Isto as deixa, tal como sucedeu tão amiúde no passado, em uma situação pior que a que tinham antes: haviam provado o sabor da fruta de “liberdade”, porém careceram de meios próprios para sustentar essa liberdade.”
        O que o Professor Clodomir oferece constitui uma esperança para a transformação rápida, em escala massiva e a baixo custo para as finanças públicas, de grandes grupos de pessoas, tanto nos pobres e no presente e no futuro “mundo sem trabalho” dos países pós-industrializados. Sendo “excluídos” (qualificação negativa), convertem-se em promotores de renda e emprego, “embaixadores de novas oportunidades de trabalho”.
        Eu que tive a oportunidade de dirigir laboratórios no estado do Piauí e participei de vários outros no Brasil, principalmente no Rio Grande do Norte, pude constatar que a Metodologia da Capacitação Massiva é transformadora e gera mudanças comportamentais, onde o indivíduo passa a distinguir facilmente o fundamental do secundário, conseguindo sistematicamente hierarquizar as ações e o grau de Consciência Organizativa que o conduzirá a realização metodológica e, consequentemente, à eficiência das ações. Porém, percebi um fator determinante para o insucesso desta Metodologia: a fragilidade dos entes federais, estaduais e municipais na concretização de políticas públicas, pois sem elas de nada adianta, o processo é cancelado. Não existindo políticas públicas, que são o conjunto de ações governamentais concebidas com o intuito de resolver problemas ou introduzir mudanças nas condições de vida da população, as empresas provenientes dos Laboratórios Organizacionais, desaparecem e as frustrações aumentam.
        Mas, nada disto muda se o homem não aceitar Jesus como o seu único e suficiente salvador. A luz dos estudos exegéticos e históricos, é sempre mais comum, na teologia, considerar que o amor de Deus é quem transforma o homem e as estruturas. O objetivo da nossa vida é de sermos cristãos, isto é, de seguir Jesus que para nós não é uma pessoa do passado, mas viva hoje (viva na sua Palavra, em meio a nós, no próximo, dentro de nós). Ser seus seguidores significa conhecer a felicidade, a plenitude, o sentido da existência, a unidade com os irmãos, a força na dor ... Em uma palavra: a vida.
A PAZ DO SENHOR!                                                                             Rafael Jácome


Nenhum comentário: