quinta-feira, 1 de abril de 2010

SEU INÁCIO UM SERTANEJO “PÉ DE SERRA” 02

CONSULTOR: Rafael Jácome

        Seu Inácio não era homem de meias palavras, dizia sempre o que sentia, pois sabia que para sua própria sobrevivência, precisava lutar e defender suas idéias. “Quando as pessoas deixam o sertão e vão para as grandes cidades, as condições de vida são piores, Muitos vão parar nas favelas, no meio do tráfico e sem trabalho. É esta a realidade que vejo, além do mais o povo é opressor, gostam de maltratar os nordestinos e marginalizar chamando-os por apelidos. Para eles todo nordestino é “Paraíba”. Mas o maior mito que fazem é nos chamar de preguiçosos”.

        Lembro-me que escutava o velho com grande atenção e admirado com sua astúcia e perspicácia de homem nordestino. Na verdade ele defendia uma transformação da região: “Isto é mentira – Continuou Inácio. Esta região é realmente castigada pelas secas e com este clima semi-árido, a população sofre muito, pois tanto a agricultura, como a pecuária sofrem influências climáticas, do período das secas, por causa da falta d’água e de pasto. Somos uma região rica, aqui tem de tudo - existem verdadeiros mananciais, assim como grandes rios e terras férteis. No entanto, somos palcos de políticas eleitoreiras”.

        Durante o período que trabalhei naquela região do sertão baiano, percebi o quanto o subemprego é um fator social muito relevante, pois, os proprietários aproveitam-se dessa situação, para pagar taxas irrisórias à mão-de-obra. Mesmo assim, encontrei pessoas trabalhadoras e incansáveis, apesar do desgaste físico de cada um, das suas peles oleosas, enrugadas, queimadas e rudes. A jornada de trabalho debaixo de um calor insuportável, as mãos na inchada, os pés descalços no chão, no chapéu a única proteção. Diante de tudo isto ainda chamam o nordestino de preguiçoso, malandro, conformista, esfomeado,... Mas encontram forças, lutam pela sobrevivência.

        Continuava a escutar tudo atentamente, quando Seu Inácio pediu a palavra: “Os sertanejos são pessoas de fé, são grãos de mostardas morrendo para frutificar, são os prediletos de Deus. É preciso que os políticos melhorem os aspectos que envolvem a economia e o trabalho. Concorda comigo Rafael?”

        O que Seu Inácio não sabia era que os políticos não querem mudanças e até hoje não temos políticas públicas voltadas para o bem estar do sertanejo. A Constituição de 1988 foi um grande passo para a promoção da dignidade da pessoa humana, mas na prática pouco se fez durante todo este tempo.

A PAZ DO SENHOR!                                        Rafael Jácome

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