quarta-feira, 12 de maio de 2010

O NARCISISMO E A INCAPACIDADE DE AMAR

Consultor: Rafael Jácome

        Durante a aula de Ética do professor Pe. Dino, ele sempre nos alertava sobre a conduta no amor fraterno. Nos seus 68 anos de idade gostava de ressaltar a diferença entre o amor erótico e o amor fraterno. Afirmava que a verdadeira forma de amar, era o amor entre irmãos, pois possibilitava a solidariedade e a compaixão e buscava o desenvolvimento integral do homem, sua libertação e sua autonomia.

        Mirko, era um italiano das redondezas de Trento, cidade ao norte da Itália. Era alto, forte, loiro, gostava de teatro e de vida boa. Estudava conosco mesmo não sabendo qual era de fato sua vocação religiosa. Era uma figura carismática, mas de poucas palavras próprio dos moradores daquela região.

        Enquanto Pe. Dino falava sobre o egoísmo como ausência de auto-estima e que o indivíduo egoísta ama, sobretudo a si mesmo e valoriza-se ao extremo, Mirko pediu a palavra: “Quero contar uma história: Em tempos idos, na Grécia, o rio Cefiso, engravidou a ninfa Liríope. Meses depois, ela, apesar de não desejar a gravidez, deu à luz uma criança de beleza extraordinária. Por causa disso, Liríope consultou o adivinho Tirésias sobre o futuro de seu filho, e ele atestou que Narciso viveria, desde que nunca visse sua própria imagem.

        Sob essa condição, ele cresceu e tornou-se um moço tão belo quanto o fora em criança. Não havia quem não se apaixonasse por ele. Narciso, entretanto, permanecia indiferente.

        Um dia, porém, estando sedento, Narciso aproximou-se das águas plácidas de um lago e, ao curvar-se para beber, viu sua imagem refletida no espelho das águas. Maravilhado com sua própria figura, apaixonou-se por si mesmo. Desesperadamente, passou a precisar do objeto de seu amor, viu que não conseguiria mais viver sem aquele ser deslumbrante. Sua vida reduziu-se a contemplação daquele jovem tão belo: desejava-o, queria possuí-lo. Desvairado, inclinando-se cada vez mais ao encontro do ser amado, mergulhou nos braços da morte”.

        Como na nossa turma existiam pessoas de toda a parte do mundo, muitos não conheciam o mito de Narciso. As reações foram as mais diversas possíveis, até que Yob, um filipino exilado com a família na Austrália, ressaltou: “Mas que estória mais triste. O cara morreu afogado, abraçado com a morte!”

        Mirko, com seu forte sotaque trentino, respondeu: “Não meu caro Yob, às margens do lago nasceu uma entorpecedora flor: o narciso. Ela relembra para sempre o destino trágico daquele que, aparentemente apaixonado por si mesmo, era, na verdade incapaz de amar”.

DEUS É FIEL!                       Rafael Jácome

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