domingo, 22 de julho de 2012

O DILÚVIO


Por Rafael Jácome
 
O dilúvio foi um cataclismo que sobreveio à primeira comunidade humana em consequência da generalização de sua impiedade, corrupção e sensualidade (Gn 6). A autossuficiência chega ao máximo da pretensão: o homem começa a considerar-se um deus ou semideus, projetando uma  super humanidade independente do projeto original de Deus. Vendo sua criação desfigurada, Javé decide exterminá-la.
Inspirada nas inundações periódicas dos grandes rios, a narrativa do dilúvio é típica das antigas culturas médias orientais. Os autores bíblicos utilizaram por causa do seu significado simbólico: o dilúvio é uma volta ao caos primitivo. Trazendo para os nossos dias, o dilúvio representa os acontecimentos catastróficos gerados pela autossuficiência, que chega a formas tão extremadas que produz o caos na natureza e no mundo humano. O texto é também uma apologia do justo: este sabe discernir a catástrofe e tomar uma atitude para sobreviver e preservar a vida. É através do justo que a história continua.
Apenas o justo Noé e sua família escaparam do dilúvio.  Segundo as Escrituras ocorreu uma grande inundação em todas as regiões da terra e que encobriu todos os altos montes, para consumir toda carne (Gn 6.17). Nele foram exterminados todos os seres, ficou somente Noé e sua família.
A principal personagem desta narração bíblica chama-se Noé. Ele foi o décimo depois de Adão, nasceu no ano de 1056 da criação e morreu no ano 2006 da criação. Viveu 950 anos e viu até a décima geração dos seus filhos. Neto de Matusalém (Gn 5:25-29) que foi, durante 250 anos, contemporâneo de Adão. Era filho de Lameque, que tinha cerca de 50 anos quando Adão morreu. Este patriarca é corretamente visto como o elo de ligação entre o velho e o novo mundo. É o segundo progenitor da família humana.
As palavras do seu pai Lameque quando ele nasceu (Gn 5:29) são vistas como tendo um sentido profético, designando Noé como um tipo Daquele que é o verdadeiro “descanso e conforto” dos homens que levam sobre si o fardo da vida (Mt 11:28).
Quando completou 500 anos, nasceram os três filhos: Sem, Cam e Jafé (Gn 5:32). Era um “homem justo e perfeito na sua geração” e que “andou com Deus” (comparar com Ez 14.14-20). Mas os descendentes de Caim e de Sete começaram a casar-se entre si e assim surgiu uma raça que se distinguiu pela sua incredulidade. Os homens tornaram-se cada vez mais corruptos e Deus determinou varrer da terra a sua perversa população (Gn 6:7). Mas com Noé Deus fez um concerto, prometendo-lhe salvá-lo do ameaçador dilúvio (Gn 6:18). De acordo com as palavras de Deus, foi-lhe ordenado que construísse uma arca (Gn 6:14-16), para que ele e a sua casa se salvassem. Passaram-se 120 anos enquanto a arca esteve a ser construída (Gn 6:3). Durante esse tempo, Noé deu o seu testemunho contra a descrença e a maldade daquela geração (1Pe 3:18-20; 2Pe 2:5).
Quando a arca de “madeira de Gofer” ficou pronta, de acordo com a ordem de Deus, as criaturas vivas que deveriam ser salvas entraram na arca; e depois Noé, a sua mulher, os seus filhos e as suas noras entraram também e “o Senhor a fechou por fora” (Gn 7:16). O julgamento caiu, então, sobre o mundo culpado, “pereceu o mundo de então, coberto pelas águas do dilúvio” (2Pe 3:6). A arca flutuou nas águas durante 150 dias e acabou por pousar nas montanhas do Monte Ararat (Gn 8:3, 4); mas só depois de algum tempo Deus permitiu que eles saíssem da arca. Por isso, Noé e a sua família ainda permaneceram um ano inteiro dentro da arca (Gn 6:14).
Ao sair da arca, a primeira coisa que Noé fez foi erigir um altar, oferecendo sacrifícios de ação de graças e adoração a Deus. Deus fez, então, um concerto com ele, o primeiro entre Deus e o homem, dando-lhe a possessão da terra e estabelecendo regras novas e especiais que ainda permanecem em força no tempo presente (Gn 8:21-9:17). Como sinal e testemunha deste concerto, Deus fez surgir o arco-íris, tendo sido adotado por Ele como garantia de que o mundo não mais seria destruído por um dilúvio.
 O texto é repetitivo porque mistura duas tradições, de épocas diferentes, sobre o dilúvio. A comparação com Gn 1.1-10 mostra que o dilúvio significa uma volta ao caos primitivo; quando a humanidade destrói em si a imagem de Deus, a consequência é a destruição de todo o mundo criado.

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