terça-feira, 27 de novembro de 2012

As Narrativas Bíblicas de Noé e as Aventuras de Gilgamesh

Por Rafael Jácome
 
               No início do século passado com a descoberta da narrativa da Epopéia de Gilgamesh, tivemos uma grande discusão sobre a autenticidade dos fatos narrados na Sagrada Escritura. Este texto retrata em trezentos estrofes as aventuras do lendário Rei Gilgamesh,  que assim como a Bíblia, cita a história de um homem que viveu antes e depois de um grande dilúvio ocorrido na terra. Os escritos encontrados e distribuidos em doze maciças tabuinhas de barros, juntamente com cerca de vinte mil textos, foram encontrados nas ruinas da biblioteca de Ninive, a mais famosa da antiguidade. Os sumérios foram os seus autores.
                No livro “E a Bíblia Tinha Razão” do escritor Werner Keller, encontramos que os textos são escritos em língua acádica e no tempo do reinado de Assurbanipal. A narrativa cita a convicção de Gilgamesh de assegurar sua imortalidade e empreende uma longa aventura, tentando encontrar o seu antepassado (Utnapistim) e descobrir o mistério da imortalidade, que os  deuses lhe conferiram. Ea era o nome de seu deus e quando houve a decisão dos deuses de exterminar o mundo, ele avisa ao seu adorador Utnapistim, assim determinando:
“Homem de Shuruppak, filho de Ubarututu, / Destrói a tua casa / Constrói um navio / Abandona as riquezas / Despreza os haveres / Salva a vida! / Introduze toda a sorte de semente de vida no navio! / Do navio que deves construir / As medidas devem ser bem tomadas”.
 
Observando o texto bíblico no relato de Noé, encontramos:
 “(Então) disse (Deus) a Noé:... Faze uma arca de madeiras aplainadas... E, de cada espécie de todos os animais, farás entrar na arca dois, macho e fêmea, para que vivam contigo. (Gênese 6.13 e seguintes).
Comparando os textos da Epopéia de Gilgamesh e da narrativa bíblica de Noé, percebemos algumas semelhanças:
Utnapistim constrói o navio segundo a ordem do deus Ea e diz:
 
No quinto dia tracei a sua forma.
Sua base media doze iku[1]
Suas paredes tinham cada uma
Dez gar[2] de altura
Dei-lhe seis andares.
Dividi sua largura sete vezes
Dividi nove vezes o seu interior
 
Joguei no forno seis sar[3] de breu
O comprimento da arca será de trezentos côvados, a largura de cinqüenta côvados, e a altura de trinta côvados.(Gênese 6.15)
...e farás nela um andar embaixo, um segundo e um terceiro andar. (Gênese 6.16)
...farás na arca uns pequenos quartos. (Gênese 6.14)
... e calafetá-la-ás com betume por dentro e por fora. (Gênese 6.14)
 
Quando Utnapistim termina a construção do navio, dá uma grande festa. Mata reses e carneiros para as pessoas que o tinham ajudado e obse­quia-as “com mosto, cerveja, óleo e vinho em abundância, como se fosse água”. Depois prossegue:
 
Tudo o que eu tinha carreguei e toda a sorte de semente de vida.
 
Meti no navio toda a minha família e parentela:
Gado dos campos, animais dos campos, todos os artesãos...
todos carreguei.
Entrei no navio e fechei a porta.
Apenas começou a brilhar a luz da ma­nhã, levantou-se do fundamento do céu uma nuvem negra.
A cólera de Adad chega até o céu: Toda a claridade se transforma em escuridão.
Noé entrou na arca com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos por causa das águas do dilúvio. É também dos animais puros e impuros, e das aves, e de tudo o que se move sobre a terra, entraram na arca com Noé dois a dois, macho e fêmea, conforme o Senhor tinha mandado a Noé. (Gênese 7.7,9)
E o Senhor aí o fechou por fora. (Gênese 7.16)
E, passados os sete dias, caíram sobre a terra as águas do dilúvio... romperam-se todas as fontes do abismo e abriram-se as cataratas do céu. (Gênese 7.10, 11)
 
                  Os deuses da Mesopotâmia enchem-se de terror ante a inundação e fogem para o céu mais alto do deus Anu. Antes de entrarem lá, “agacham-se como cães”. Estão aflitos e abalados pela catástrofe e protestam humilhados e chorosos.
Uma descrição digna de um Homero!
Mas a tempestade prossegue, implacável:
 
Seis dias e seis noites,
sopra o vento, o dilúvio,
a tempestade do sul
assola a terra.
Quando chegou o sétimo dia, a
tempestade do sul, o dilúvio,
foi abatida em combate,
que ela como um exército havia
sustentado.
O mar se acalma e fica imóvel,
cessa a tormenta, cessa o dilúvio.
E toda a humanidade estava
transformada em lodo,
E o chão ficou semelhante a um
telhado.
E veio o dilúvio sobre a terra durante quarenta dias. E as águas engrossaram prodigiosamente sobre a terra; e todos os mais elevados montes, que há sob todo o céu, ficaram cobertos. (Gênese 7.17 e 19)
Ora lembrou-se Deus de Noé... e fez soprar um vento sobre a terra, e as águas diminuíram. (Gênese 8.1)
fecharam-se as fontes do abismo e as cataratas do céu, e foram retiradas as chuvas do céu.
E as águas, agitadas de uma parte para outra, retiraram-se de cima da terra, e começaram a diminuir, depois de cento e cinqüenta dias. (Gênese 8.2,3)
Toda a carne que se movia sobre a terra foi consumida... e todos os homens. (Gênese 8.21)
 
Utnapistim conta ao impressionado Gilgamesh o que aconteceu depois que a catástrofe terminou:
 
Abri o respiradouro e a luz caiu no meu rosto.
 
O navio pousou no monte Nisir.
O monte Nisir prendeu o navio e não o deixou flutuar.
E, tendo passado quarenta dias, abriu Noé a janela, que tinha feito na arca. (Gênese 8.6)
 
E, no sétimo mês, no décimo sétimo dia[4], parou a arca sobre o monte Ararat. (Gênese 8.4)
 
Na sua conclusão sobre as semelhanças dos dois textos, Werner Kerner define: “Apesar das indicações precisas da epopéia de Gilgamesh, nunca os curiosos se mostraram interessados em procurar o monte Nisir, nem o lugar onde teria encalhado o gigantesco navio. Em compensação, o monte Ararat da tradição bíblica tem sido objeto de uma série de expedições.
O monte Ararat está situado na parte oriental da Turquia, próximo à fronteira soviético-iraniana. Seu cume, coberto de neves perpétuas, ele­va-se cinco mil cento e cinqüenta e seis metros acima do nível do mar. As primeiras expedições ao monte Ararat aconteceram já no século passado, muitos anos antes que os arqueólogos começassem a escavar no solo da Mesopotâmia. O impulso que levou a essas expedições foi dado pela história de um pastor.
...Nenhuma tradição sobre os tempos primitivos da Mesopotâmia con­corda tão de perto com a Bíblia como a história da inundação descrita na epopéia de Gilgamesh. Em alguns trechos, há uma consonância quase literal. Existe, porém, uma diferença significativa e essencialíssima. Na história do Gênese, tão familiar para nós, trata-se de um Deus único. Desapareceu a idéia grotesca, fantástica e primitiva de um céu superpovoado de divindades, muitas das quais apresentam características dema­siado humanas, divindades que choram e se lamentam, e se assustam e se encolhem como cães.”




[1] Cerca de três mil e quinhentos metros quadrados.
[2] Um gar equivale a cerca de seis metros.
[3] Medida desconhecida
[4] A Bíblia de Soares, que estou seguindo, diz: “... vigésimo sétimo dia do mês” e “parou sobre os montes da Armênia”.
(N. do T.)
 
DICA DE LEITURA: 
LIVRO "E A BÍBLIA TINHA RAZÃO" - keller, Werner - 18ª Edição – 1992,  Comp. Melhoramentos de São Paulo


DEUS É FIEL!                                               Rafael Jácome

 

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