domingo, 30 de dezembro de 2012

Ela Voltou (Ou Nunca Deixou de Existir): A Indústria da Seca

Por Rafael Jácome
 
 
     Em visita a cidade de Santos/SP a uns quatro anos atrás, conheci diversos nordestinos que afirmavam as suas vontades de retornarem ao nordeste. Entre sorrisos e lágrimas, as lembranças de suas cidades de origens eram profundas nas suas palavras e sentimentos. Todos, com raras exceções, brilhavam quando diziam que um dia retornariam. A causa de suas idas para as metrópolis do sul do país, foi a escassez de políticas públicas para manter o homem do campo em suas terras. Como sabemos, o nordeste sofre com o fenômeno da seca e que castiga a vida do sertanejo, entretanto, pouco foi feito para impedir o êxodo rural nordestino.
    Cidades inteiras perderam seus chefes de famílias, largando mulher, filhos, terras, gado, cachorro, preá e tudo mais, em busca de sobrevivência no eixo sudeste-sul do Brasil. O governo e os políticos acompanhavam de perto, vendo a movimentação e fazendo o estudo para manter, assim mesmo, os seus currais eleitoreiros nas cidades. Desde então, esta tragédia encobre interesses esdrúxulos e escusos daqueles que tem influência política ou economicamente poderosos e buscam eternizar os problemas e perpetuarem seus domínios.
     Alguns programas e tentativas paleativas fracassadas foram criadas pelos governos desde o ano de 1945. As primeiras iniciativas para se lidar com a questão da seca foram direcionadas para oferecer água a zona do semiárido, com a criação da Inspetoria de Obras Contra a Seca (atual DNOCS). O objetivo era o combate aos efeitos das irregularidades climáticas. Para tanto, foram iniciadas as construções de estradas, barragens, açudes, poços, como uma forma de proporcionar apoio para que a agricultura suportasse os períodos de seca.
     Naquele mesmo ano foi fundada a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), que existe até hoje; antes, 1948, criou-se a Comissão do Vale do São Francisco (CVSF), mudou só de nome: Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf); culminando em 1952 com a fundação do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) com a finalidade de garantir linhas de crédito a médio e longo prazos ao nordestino. Mas, foi em dezembro de 1959 que ocorreu a criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE. Esta já faliu, está extinta e querem ressuscitá-la com outros moldes.
    Sem muitas delongas, o que estou escutando proveniente das cidades interioranas, é que a seca está castigando, matando gente e animais, a  água sendo economizada, a CAERN com seus reservatórios secando, o povo chorando e os prefeitos e as oligarquias locais vendendo água a preço dos olhos da cara, dizem que por 1.500 litros d'água é cobrado o valor de R$ 50 reais. Absurdo! As secas vão continuar existindo, porém é possível conviver com o problema. Não podemos aceitar a omissão dos governantes e da passividade da população que é a própria vítima. O país precisa de políticas governamentais sérias, contínuas e voltadas para a causa do problema, com medidas estruturadoras e concretas e que venham minimizar o drama do nordestino.
     Os problemas sociais também existem, mas a culpa pela miséria da região não pode recair sempre sobre o fenômeno das secas. Ela não é a responsável por toda a situação de danos e flagelos da população. O que sempre existiu é a má distribuição de terras e de renda, ausência de trabalho e a retaliação aos pobres cada vez mais pobres em detrimento de grupos políticos e apadrinhados cada vez mais ricos.
     Quem sabe depois do nosso nordeste ser levado a sério, as pessoas com quem falei em Santos, poderiam realizar os seus sonhos de retornarem as suas cidades de origem, junto aos seus familiares e conterrâneos.

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