terça-feira, 26 de março de 2013

O Livro de Jó e Seu Cumprimento no NT

Por Rafael Jácome
Fonte: Bíblia de Estudos


      O Redentor a quem Jó confessa (19.25-27), o Mediador por quem ele anseia (9.32,33) e as respostas às suas perguntas e necessidades mais profundas, todos têm em Jesus Cristo o seu cumprimento. Jesus identificou-se inteiramente com o sofrimento humano (cf. Hb 4.15,16; 5.8), ao ser enviado pelo Pai como Redentor, mediador, sabedoria, cura, luz e vida. A profecia da parte do Espírito sobre a vinda de Cristo, temo-la mais claramente em 19.25-27. Menção explícita de Jó, temos duas vezes no NT: (1) Uma citação (5.13, em 1 Co 3.19) e (2) uma referência à perseverança de Jó na aflição e o resultado misericordioso da maneira de Deus lidar com ele (Tg 5.11). Jó ilustra muito bem a verdade neotestamentária de que quando o crente experimenta perseguição ou algum outro severo sofrimento, deve perseverar firme na fé e continuar a confiar naquele que julga corretamente, assim como fez o próprio Jesus quando aqui sofreu (1 Pe 2.23). Jó 1.6—2.10 é o mais detalhado quadro do nosso adversário, juntamente com 1 Pe 5.8,9.

As Características do Livro de Jó

Por Rafael Jácome
Fonre: Bíblia de Estudos

       Sete características principais assinalam o livro de Jó. (1) Jó, um habitante do norte da Arábia, foi um não-israelita justo e temente a Deus, que talvez tenha existido antes da família de Israel, e do seu concerto com Deus (1.1). (2) Este livro é o mais profundo que existe sobre o mistério do sofrimento do justo. (3) Revela uma dinâmica importante, presente em toda prova severa dos santos: enquanto Satanás procura destruir a fé dos santos, Deus está operando para depurá-la e aprofundá-la. A perseverança de Jó na sua fé permitiu que o propósito de Deus prevalecesse sobre a expectativa de Satanás (cf. Tg 5.11). (4) O livro é de valor inestimável pela revelação bíblica que contém sobre assuntos-chaves tais como: Deus, a raça humana, a criação de Satanás, o pecado, o sofrimento, a justiça, o arrependimento e a fé. (5) Boa parte do livro ocupa-se da avaliação teológica errônea que os amigos de Jó fizeram do sofrimento deste. A repetição freqüente desta avaliação errônea no livro talvez indique tratar-se de um erro comum entre o povo de Deus; erro este que exige correção. (6) O papel de Satanás como “adversário” dos justos, o livro de Jó o demonstra mais do que em qualquer outro livro do AT. Entre as dezenove referências nominais a Satanás no AT, quatorze ocorrem em Jó. (7) Jó demonstra com toda clareza o princípio bíblico de que os crentes são transformados pela revelação, e não pela informação (42.5,6).

AS PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS NO IMPÉRIO ROMANO (SÉC. I-IV)- Parte III

Por Rafael Jácome
 
FONTE: Diogo Pereira da Silva1 - http://lattes.cnpq.br/5248383186264996
 
     A população pagã do Império Romano não demonstrava muita simpatia pelos cristãos; tal qual se apresenta no Apologético, de Tertuliano, a primeira causa das ondas persecutórias em Cartago foi a fúria da população local. E o apologista arremata seu argumento com uma de suas sentenças mais conhecidas (Tertuliano. Apologético 40,1):
"Se o Tibre chega às muralhas, se o Nilo não se eleva até os campos, se o céu não provê chuva, se há terremotos, se há fome ou peste, imediatamente grita-se, „Os cristãos ao leão‟. Tantos para um?"
     Neste sentido, podemos observar o desenvolvimento do seguinte fenômeno: os cristãos se converteram no decorrer do século III, nos principais inimigos internos do Império Romano, dos valores romanos, perturbavam a
paz dos deuses, e punham em risco a manutenção da própria res publica.
     Tal pensamento foi recrudescido pelo aumento das pressões germânicas sobre o Império. E, em 250, o imperador Décio emitiu um decreto no qual obrigava a todos os cidadãos do Império Romano a efetuar sacrifício aos deuses tradicionais perante uma autoridade imperial, da qual receberia um certificado, o
libellus (Daniélou, Marrou, 1966: 213-214; Rives, 2007: 199).
     Após o decreto imperial, importantes líderes das comunidades cristãs foram perseguidos, postos em fuga – como Cipriano de Cartago (Epístolas 2,1) –, ou martirizados – como Fabiano de Roma (Cipriano de Cartago. Epístolas 75,3) e Bablas de Antioquia (História Eclesiástica VI. 39, 4).
     A partir da documentação que nos está disponível – em especial as Epístolas de Cipriano de Cartago, e a História Eclesiástica, de Eusébio de Cesareia –, podemos observar como a política imperial alcançou um relativo, e rápido, êxito. As comunidades "decapitadas" – pois seus líderes ou estavam escondidos, ou mortos –, caíram na apostasia, como o caso bem documentado de Cartago, onde os cristãos negavam sua religião, e, em seguida, efetuavam os sacrifícios (Cipriano de Cartago.
Tratado sobre os apóstatas 8).
      Sete anos após a morte de Décio, em 257, Valeriano promulgou dois editos em conjunto com o Senado de Roma, que estabeleceram as diretrizes da perseguição e a ilicitude do Cristianismo. As autoridades romanas não tinham dúvidas do caráter hostil do Cristianismo em relação à res publica. A perseguição promovida por Valeriano objetivava a destruição das comunidades cristãs a partir do confisco de seus bens e da destruição física de suas principais lideranças e notáveis.
      A partir dos testemunhos de Cipriano de Cartago (Epístolas 76-79), percebemos que os notáveis das comunidades foram, quando não exilados, condenados às minas (
damnatio ad metalla), e os libertos ou escravos eram diretamente postos à morte. Por certo, antes do fim de 258, o bispo de Cartago, Cipriano, foi martirizado (Cipriano de Cartago. Epístolas 82).
     Ao que se pode depreender dos testemunhos, a perseguição de Valeriano parece ter sido mais rígida no Norte da África, que em outras regiões do Império; e, em 260, eis que a situação mudou favoravelmente aos cristãos. O imperador Valeriano, que comandava as tropas romanas em luta contra os exércitos de Sapor II, caiu nas mãos dos persas sassânidas. Prisioneiro, o imperador passou o resto de seus dias como escravo pessoal do xá persa (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VII, 13,1; Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores 5,2-5). E, pouco tempo depois, Galieno (253-268) – filho e co-imperador de Valeriano – promulgou um rescrito pelo qual devolvia os lugares de culto e os bens às comunidades cristãs (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VII, 13,1), embora não tivesse declarado o cristianismo uma religião lícita.
      Para esta "Pequena Paz da Igreja", infelizmente, possuímos apenas os relatos contido na História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia. Contudo, podemos afirmar que neste período de desorganização administrativa do poder imperial romano, o Cristianismo fincou raízes profundas, e espalhou suas tramas, de tal forma, que nem o grande esforço persecutório de Diocleciano – e de alguns tetrarcas – foi capaz de eliminar as comunidades cristãs.
      No ano 284, Diocleciano foi aclamado imperador, e teve de lidar com vários problemas políticos e militares – como a paz com os persas, as invasões germânicas no limes Reno-Danubiano e o movimento bagáudico (Silva, Mendes, 2006: 198; Rodrigues Guervas, 1991; Van Dam, 1985: 7-56).
      Em curto prazo, a solução posta em prática por Diocleciano para consolidar a sua posição, e fazer frente aos problemas, foi o exercício colegiado do poder imperial, conhecido pela historiografia como Tetrarquia: um sistema político que baseava na promoção da concórdia e da uniformidade.
      Entre os anos 293 e 303 ocorreram importantes reformas como a divisão e reorganização das províncias, as quais estariam agrupadas em dioceses (Anderson, 1932: 24-32; Baynes, 1925: 195-208; MacMullen, 1964: 305-316), o aumento do número de legiões, fixação dos preços, através do Edito de Máximo (Jones, 1953: 293-318; Michell, 1947: 1-12; West, 1939: 239-245) (do ano 301), que embora não tenha logrado êxito, demonstra a proposta de uniformização e unificação que embasava as ações de Diocleciano.
      Neste contexto, qual o motivo que levou Diocleciano a mover uma perseguição contra os cristãos, após cerca de quarenta anos desde o rescrito de Galieno? Já que conforme nos recorda Moses I. Finley (1991: 170):
Cristãos ocupavam cargos públicos, e eram leais (ou tão indiferentes) ao Império como qualquer outro grupo, não havia nenhuma grande pressão popular no sentido de eliminá-los, no sentido de torná-los bodes expiatórios da peste e da fome; em suma, não havia nenhum motivo político ou social visível para que Diocleciano, quase ao final de seu reinado, decidisse esmagar essa religião.
      Para Paul Veyne, por volta do ano 300, Diocleciano buscou estabelecer por decreto a pureza moral no Império Romano, alegando que o respeito às veneráveis e puras normas das leis romanas fariam com que os deuses fossem mais indulgentes com Roma ao "virem que todos os súditos do imperador levam uma vida piedosa, devota, tranqüila e pura" (VEYNE, 2009: 245).
      Por conseguinte, no ano 303, o Cristianismo se apresentava perante Diocleciano (284-305) e a Tetrarquia como o último obstáculo à unidade e à concórdia que embasavam as políticas de Diocleciano citadas acima.
      No primeiro dos editos de perseguição, exigia-se que todas as escrituras e obras cristãs fossem entregues às autoridades imperiais, sob pena de aprisionamento dos que fossem contra a medida; ademais, as igrejas cristãs foram demolidas, os cristãos foram proibidos de fazer alegações em juízo (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores 12, 2; 13, 1. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. VIII, 2, 1-5). Os cristãos de alta dignidade (os
honestiores) foram privados de seus privilégios, muitos dos libertos e escravos foram aprisionados.
      Contudo, de acordo com Lactâncio – que residia em Nicomédia àquela época –, Diocleciano se opunha ao livre derramamento de sangue, e ao martírio (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 11, 3). O primeiro dos editos não comportava a ordem de sacrifícios gerais cuja negação era a morte; tal expediente apenas se tornou presente no quarto – e último – dos editos de perseguição, emitido em agosto de 304.
      Neste meio tempo, o segundo e o terceiro editos foram promulgados. O segundo ordenava o aprisionamento dos bispos, diáconos e clérigos; o terceiro – que coincidiu com a celebração da
vicennalia de Diocleciano, celebrada em Roma –, dispunha que apenas após o efetuar um sacrifício o cristão estaria livre da prisão (Barnes, 1981: 23-24).
      No ano 304, observamos ao recrudescimento da perseguição em decorrência de um incêndio ocorrido no palácio de Nicomédia. Tal episódio nos foi relatado por Eusébio de Cesareia, Constantino e Lactâncio (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VIII, 6, 6; Constantino. Oração à Assembléia dos Santos 25; Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores 14, 2), enquanto os dois primeiros conferem ao fato causas naturais, Lactâncio novamente acusa Galério de ter iniciado o fogo para culpar os cristãos, e incitar Diocleciano a promulgar o quarto edito de perseguição.
      A perseguição no Ocidente não se manteve após a abdicação de Diocleciano e Maximiano; e, no Oriente, em 30 de abril de 311, Galério – que estava sofrendo de uma terrível enfermidade (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 33, 1-11) – promulgou a sua palinódia, admitindo o insucesso da perseguição, e de suas medidas que tinham por objetivo fazer com que os cristãos voltassem a cultuar os deuses tradicionais de Roma, e permitindo que os cristãos retomassem a sua religião e seus lugares de culto. Ademais, pediu que os cristãos rezassem a seu Deus pela saúde dos imperadores, da res publica e de sua comunidade (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 34, 1-5. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VIII, 17, 3-10).
      A perseguição se manteve, entretanto, no Oriente sob jurisdição de Maximino Daia. Este possuía uma postura extremamente anticristã, e, inclusive, fez propagar os chamados Atos de Pilatos: No entanto, o "Edito de Galério", que extinguiu os editos persecutórios, e inclui o Deus dos cristãos no conjunto das divindades que salvaguardariam o Império Romano, acabou por lançar as bases para as relações que esta religião construiu com o poder imperial, no decorrer do século IV, durante e após o governo de Constantino I.
      O Cristianismo agora era uma religião lícita (religio licita). A vitória de Constantino sobre Maxêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 44, 1-12; Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica IX, 9, 1-13; Vida de Constantino I, 38-40,1-2), a conferência imperial de Milão, entre Constantino e Licínio (308-324) (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 48, 1-12; Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. X, 5, 1-14), e a posterior derrota de Maximino Daia perante Licínio (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 46-47; 49, 1-7; Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. IX, 10. 1-5; 11, 1-7) vieram a selar o novo panorama político e religioso do Império Romano. Em 313, o Cristianismo de religião ilícita e perseguida tornou-se uma religião lícita e, a partir de Constantino, favorecida pelos imperadores romanos.
 
 
 
 

AS PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS NO IMPÉRIO ROMANO (SÉC. I-IV) - Parte II

Por Rafael Jácome

FONTE: Diogo Pereira da Silva1 http://lattes.cnpq.br/5248383186264996

    Nos aproximadamente 250 anos que separam a perseguição posta em prática pelo imperador Nero (54-68), no ano 64, e o "Edito de Galério", do ano 311, o Cristianismo era considerado uma religião ilícita e suspeita, cujos membros estavam sujeitos ao aprisionamento, à condenação e à pena capital.
    Até o século II, as ações persecutórias encontravam-se circunscritas às autoridades e ao nível das províncias romanas. Conforme observou G.E.M. de Ste Croix, o poder imperial, nesta época, não intervinha diretamente sobre a questão dos cristãos, a qual ficava a cargo dos governadores de província (STE CROIX, 1963: 7).
    Todavia, observamos no século III uma modificação no que se refere ao tratamento dispensado pelo poder imperial à questão do Cristianismo. Os imperadores
passaram a se envolver diretamente com a questão cristã, em especial Décio, Valeriano e Diocleciano.
    Segundo os nossos testemunhos documentais, o primeiro encontro entre as autoridades imperiais romanas e a comunidade cristã foi no ano 64. Caso levemos em consideração que a narrativa do livro de
Atos dos Apóstolos apresenta seu término no ano de 62, observamos que as relações entre cristãos e autoridades romanas mostravam-se sob o véu do tolerável2. Em sua chegada a Roma, Paulo de Tarso e seus seguidores eram considerados ainda, embora suspeitos, membros da comunidade judaica (At. 28:17-22); no entanto, este relacionamento mudou bruscamente em dois anos.
     Na noite do dia 18 de julho de 64, ocorreu um dos eventos mais controversos da Antiguidade Romana, um grande incêndio – favorecido pelo clima seco do início do verão, e pelos ventos – consumiu vários quarteirões da cidade de Roma. Segundo os relatos de Tácito e Suetônio, várias pessoas morreram e outras tantas ficaram desabrigadas (Tácito. Anais XV. 44, 2-8; Suetônio, Vida de Nero 38; Dião Cássio. História de Roma LXII, 16-18; Eutrópio. Breviário VII, 13).
     Todavia, a tradição documental nos indica que as suspeitas sobre o incêndio recaíram sobre o próprio imperador Nero (54-68), já que eram bastante conhecidos seus planos faustosos para fazer de Roma uma cidade digna de ser uma capital imperial. Neste sentido, relata-nos Tácito – em narrativa que dista meio século dos eventos – que:
"Nero, para desviar as suspeitas, procurou culpados, e castigou com as mais terríveis penas a certo grupo, já odiado por suas abominações, que o vulgo chamava cristãos" (Tácito. Anais XV. 44,3).
     Prenderam os que se confessavam cristãos, e puseram-lhes à morte, nos jardins que Nero, prontamente, ofereceu para o ocaso (Tácito. Anais XV. 44,7):

"O suplício destes miseráveis foi ainda acompanhado de insultos, porque ou os cobriam com peles de animais ferozes para serem devorados pelos cães, ou foram crucificados, ou os queimaram de noite para servirem de archotes e tochas ao público"
.
     Entretanto, as punições severas impostas aos cristãos geraram um sentimento de comiseração nos espectadores, e, além do mais, não exoneraram Nero de seu possível ato criminoso, pois
"não eram imolados à utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade de um" (Tácito. Anais XV. 44,8).
     Os eventos do ano 64, e as ações tomadas pelo poder imperial ressoaram por um longo período, e seus ecos podem ser vistos em Tertuliano (Ad Nationes 1,7,9;
c.f. Apologético 5,3), Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica II. 25, 1-8) e Lactâncio (Sobre a morte dos perseguidores 2, 1-8). Ademais, tais eventos são considerados como o início das ações persecutórias dos romanos contra os cristãos.
     O segundo encontro entre as autoridades romanas e os cristãos ocorreu entre 109 e 111, durante o principado de Trajano, quando Plínio, o Jovem era legado imperial na Bitínia.
     A partir de sua correspondência com Trajano, podemos inferir que a ida de Plínio à Bitínia nada tinha a ver com os cristãos, mas com questões administrativas, em especial a regulação dos
collegia – isto é, das associações entre pessoas. Alguns desses collegia foram, inclusive, banidos por Plínio (Cartas. X, 33-34; SHERWIN-WHITE, 1966: 606ss).
Em 111, Plínio deparou-se com os cristãos ("
christiani"), os quais foram trazidos perante ele. Em sua carta a Trajano, Plínio declarou que não tomou parte de quaisquer investigações contra os cristãos, nem estava familiarizado com a natureza dos crimes que lhes eram atribuídos, no entanto, não hesitou em ordenar a execução daqueles que persistiam em afirmar por três vezes seu pertencimento ao grupo dos cristãos (Plínio o Jovem. Cartas X, 96-97; SHERWIN-WHITE, 1966: 693-700; Ste CROIX, 1963:9). Quanto a isto, não possuía dúvidas, uma vez que sua "a obstinação e a firme perversidade mereciam ser punidas" (Plínio o Jovem. Cartas X, 96).
     Entretanto, ocorreram complicações. Panfletos anônimos denunciavam uma série de indivíduos de tomarem parte dos ritos cristãos; frente a isto, Plínio se pôs a investigar e interrogar os denunciados. Aos inquiridos que negavam ser cristãos, exigia-se-lhes que recitassem uma invocação aos deuses, seguida de libações de vinho e oferecimento de incenso, e, por fim, que insultassem o nome de Cristo; após o qual estavam livres (Plínio o Jovem. Cartas X, 97,1).
     Plínio estabeleceu uma série de disposições, como a proibição do encontro das assembléias, e conclui sua carta a Trajano, escrevendo sobre como os templos que
Outrora estavam esvaziados se viram novamente repletos, e como os ritos sagrados foram novamente revividos.
     A resposta de Trajano, assertiva, por certo, é uma síntese das ações já tomadas por Plínio; os cristãos não deveriam ser tratados como os criminosos comuns, sacrílegos ou bandidos, embora ainda estivessem em estatuto de ilegalidade perante a lei romana, e, caso fossem acusados, deveriam ser punidos (Plinio, o Jovem. Cartas
. X, 97; SHERWIN-WHITE, 1966: 710–12). Certamente, que a rejeição das acusações anônimas diminuiu a quantidade de denúncias.
      Pode-se notar que este momento se impôs como crucial nas relações entre as autoridades imperiais romanas e as comunidades cristãs, de tal modo que o rescrito de Trajano – contido na correspondência de Plínio, o Jovem – foi aplicado largamente durante o século II, tal qual podemos inferir do
Apologético de Tertuliano (Apologético 2, 4-9), e na narrativa que Eusébio de Cesareia fez da perseguição aos mártires de Lião e Viene, na Gália no ano de 177, no principado de Lúcio Vero e Marco Aurélio (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. V, 1, 1-63).
     Não obstante a sua contradição – outrora já demarcada por Tertuliano (Apologético 2, 4-5)
3 –, a de não perseguir os cristãos, ao mesmo tempo em que se deveria aplicar a punição aos que porventura caíssem às mãos das autoridades; o rescrito de Trajano proveu as autoridades romanas das orientações que deveriam tomar em relação às comunidades cristãs.
      Decerto é significativo o fato de que os provinciais se erguiam contra as comunidades cristãs, o contexto em que se encontrava parecia demonstrar a incompatibilidade entre o monoteísmo e a moral dos cristãos e o modo de vida dos demais membros da sociedade; posto que o culto ao imperador, à deusa Roma, às grandes divindades provinciais, e às pequenas divindades garantia a felicidade e a manutenção do Império Romano (Ando, 2008: 120-148; Rives, 2007: 105-157; MacMullen, 1984: 10-16).









AS PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS NO IMPÉRIO ROMANO (SÉC. I-IV) - Parte I

Por Rafael Jácome

FONTE:
Diogo Pereira da Silva1 - http://lattes.cnpq.br/5248383186264996
 
 
     O fenômeno das perseguições aos cristãos ocorridas no Império Romano, é um dos temas da História Romana mais apropriados e relidos pela cultura ocidental. Desde romances históricos até filmes épicos como Quo Vadis, de Mervyn LeRoy (1951) entre outros.
      As perseguições aos cristãos é uma das séries de acontecimentos que se apresentam aos pesquisadores como um problema historiográfico de grande complexidade, uma vez que permite contrapor determinados paradigmas relativos à índole tolerante e integradora da cultura religiosa da sociedade romana, com a intolerância religiosa que se impôs progressivamente mais forte contra as comunidades cristãs nos primeiros quatro séculos do movimento.
      Sobre este contraponto, alguns pesquisadores buscaram responder ao seguinte problema fundamental: se a cultura religiosa romana possuía como ponto fundamental o seu caráter integrador – estabelecido por uma série de práticas religiosas, como a interpretatio (RIVES, 2007: 142-147) que permitia o aprofundamento dos processos de romanização, por que os primeiros cristãos foram perseguidos?
      Em volta desta pergunta, Geoffrey Ernest Maurice de Ste Croix (1963) e Adrian Nicholas Sherwin-White (1964), dois importantes pesquisadores da História Greco-Romana, estabeleceram um interessante debate no início da década de 1960.
       De um lado, G.E.M. de Ste Croix, propunha que as perseguições aos cristãos se baseavam na recusa deste grupo em reconhecer os deuses de Roma, o que era visto como um comportamento perigoso e sedicioso. Afinal, os deuses tradicionais do panteão greco-romano eram as divindades principais da religião pública de Roma, que se não fossem cultuadas, mesmo que por apenas uma parcela da população, poderiam se enraivecer devido à quebra

da pax deorum, a "paz dos deuses" (Ste. CROIX, 1963: 24).
Esta é também conhecida como hipótese da manutenção da

pax deorum, que se baseia em registros documentais de apologias e cartas dos Pais da Igreja que descrevem a situação de ira popular contra os cristãos, após cada desastre que porventura viesse a cair sobre o Império Romano.
      Embora o grupo governante do Império Romano fosse formado por homens educados, Ste Croix propôs que a perseguição se relacionava ao sentimento religioso da época supersticiosa na qual eles viviam (Ste. CROIX, 1963: 29-31), tese apresentada por E.R. Dodds (1990).
      Por sua vez, A. N. Sherwin-White (1964: 25) propôs que as perseguições aos cristãos se baseavam não na questão do rompimento da

pax deorum, mas na contumacia, isto é, na obstinação ferrenha dos cristãos em não cometer apostasia nem sacrificar para as divindades do panteão greco-romano. Segundo Sherwin-White, tal postura dos cristãos desafiava as autoridades romanas, e poderia minar o seu poder através da desobediência, conforme pode ser visto nas Cartas de Plínio, o Jovem, a Trajano (Plínio o Jovem, Cartas X, 96-97).
      Após a tréplica de G.E.M. Ste. Croix (1964), a disputa entre estes dois pesquisadores arrefeceu, entretanto, a questão norteadora do artigo de Ste Croix ainda se mantém, afinal, por que os cristãos foram perseguidos pelas autoridades romanas?
     Durante o século XX, os historiadores se dividiram entre estas duas propostas, ora tendendo a uma delas, ora mantendo uma postura de aceitar os pontos fortes de cada um dos pesquisadores.

    Além destas duas posturas principais, cabe salientar a proposta recentemente apresenta por Paul Veyne, em um artigo denominado
culto, piedade e moral no paganismo greco-romano (2009). Para Veyne, a atitude de crítica dos romanos frente às comunidades cristãs se baseava na repulsa "ao que era híbrido, impuro e ambíguo" (2009: 245). Sob este ponto de vista, que nos remete às questões de identidade cultural, podem-se inserir as perseguições no quadro dos conflitos culturais com algo que não se conhece, contra um grupo que não se sabe bem ao certo o que seja.
      Nesse sentido, Veyne propôs que os cristãos eram vistos como híbridos pelos pagãos romanos, uma vez que, possuíam as mesmas categorias de pensamentos dos demais cidadãos do Império Romano (VEYNE, 2009: 246):


"Os cristãos faziam parte do Império, mas sem os mesmos costumes, evitavam conviver com os outros, não participavam das festas ou dos espetáculos, não veneravam os deuses nacionais, seu Deus não pertencia a determinada nação, diferente do deus dos judeus. Além de querer se isolar como ma legítima diferença nacional, esse Deus pretendia superar os deuses nacionais"


      As perseguições eram causadas pela rejeição a algo inclassificável, anormal. E para justificar as ações persecutórias, os romanos lançavam mão de argumentos tradicionais, como o respeito ao

mos maiorum ("o costume dos ancestrais") e o respeito à unidade religiosa e moral da coletividade.

 


 

sábado, 23 de março de 2013

A Classe Social e a exploração

Por Rafael Jácome

     A classe - que é essencialmente uma relação - é antes de mais nada a expressão social coletiva do fato da exploração (e, é claro, da resistência a este fato): a divisão da sociedade em classes econômicas é, pela sua própria natureza, a maneira pela qual a exploração é efetuada, com a classe proprietária vivendo à custa da classe não propietária. Admito que a maneira como emprego a palavra "exploração" acaba dando a ela um tom pejorativo; mas, na verdade, ela é essencialmente uma expressão sem "juízo de valor", significando apenas que a classe proprietária está livre do trabalho de produção pela sua capacidade de se sustentar através dos excedentes tomados dos produtores primários, quer consiga isso através da compulsão, da persuassão ou (como na maioria dos casos) de uma mistura das duas.
                                                G.E.M. de Ste. Croix (1975, 26)

A Paz Romana

Por Rafael Jácome

     O Imperador Augusto ficou famoso com a instauração da Paz Romana. No entanto, alguns historiadores afirmam que esta paz era mais pertinente para acabar com uma guerra civil romana e italiana e isto beneficiava o que havia sido destruído em suas províncias. Mas, em relação a outros domínios qual era a verdadeira postura do governante romano? Segundo o magnifico discurso de Tácito criado para seu sogro Gneu Júlio Agricola, governador da Bretanha entre 77 e 84 E.C. Cálgaco, um general bretão, descreve o Império Romano alguns momentos antes de ter um encontro com o seu poderosos exército.
 
Saqueadores do mundo, agora que a terra não é o bastante para as suas mãos devastadoras, eles exploram até o mar:se o inimigo possui riquezas, eles têm ganâncias; se ele é pobre, são ambiciosos; Oriente e Ocidente já os abarrotaram de riquezas; são o único povo da humanidade que contempla com a mesma concupiscência a fartura e a escassez. Pilham, matam, rouba, e chamam isso de império (imperium), trazem desolação e chamam isso de paz.  Os filhos e a família são, pela lei da natureza, os bens mais preiosos de um homem: eles são arrancados de nós para serem levados como escravos para terras distantes; as nossas mulheres e irmãs, mesmo quandoo escapam do desejo de um soldade, são violadas por pretensos amigos e hóspedes; nossas posses são tomadas sob a forma de tributos; nossas terras e colheitas, em requisições de suprimento; a nossa própria vida e nosso corpo são usados para derrubar florestas e pântanos, sob um coro de zombarias e pancadas. Os escravos que já nascem no cativeiro são vendidos de uma vez por todas e são alimentados por seus senhores. mas a Bretanha paga um preço diário pelo seu próprio cativeiro, e ainda alimenta os escravos.
          (Tácito, Agrícola, 30-31; Stuart, 18-19; Wengst, 52-53)   
 
     Assim como em outros grandes impérios a Itália e Roma aprenderam que um centro imperial pode "exportar a sua violência para outro lugar e dar a isso o nome de lei e de ordem, ou até mesmo de paz". (Crosson, Jonh Dominic, 77)

 

O Fetichismo e o Totemismo

Por Rafael Jácome
 
 
    Consideradas como variantes do animismo, o fetichismo e o totemismo são também características das religiões primitivas. Os portugueses denominaram de fetichismo à religião dos negros da África Ocidental e consiste na veneração a objetos aos quais se atribuem poderes sobrenaturais ou que são possuídos por um espírito. O totemismo seria um sistema de crenças e práticas culturais que estabelece relação intima entre um indivíduo ou grupo de indivíduos e um animal - à vezes também um vegetal, um fenômeno natural ou algum objeto material - esta relação gera algum tipo de culto e respeito ao qual se estabelecem determinadas proibições  (como alimento, contato, ...)
 
 

Animismo

Por Rafael Jácome


     Através dos estudos feitos pelo britânico Edward Burnett Tylor, criou-se o conceito de animismo. Ele defendeu que o homem primitivo, a partir da experiência do sonho e do fenômeno da respiração, concebeu a existência de uma alma ou do elemento vital imaterial que habitava todos os seres dotados de movimento e vida. Diante dos fenômenos naturais ou a  necessidade de ter seus benefícios, fez com rendesse veneração e culto aos mesmos.
 
 

sexta-feira, 22 de março de 2013

Participação Popular

Por Rafael Jácome

     Quando um povo colonizado é impedido de participar das decisões que definem a sua própria vida, ele pode se voltar com um ânimo redobrado para as suas tradições culturais. Os ritos e as tradições religiosas passam a ter, então, uma importância especial, pois são o único aspecto da sua vida que permanece sob mínimo de dignidade, os povos colonizados tendem a se prender ainda mais às normas, tradições e rituais de sua religião, como um símbolo de liberdade e da independência que possuiam no passado. Isso faz com que sejam ainda mais sensíveis a qualquer violação destes símbolos.
                        Richard A. Horsley (1987, 128)

Flávio Josefo

Por Rafael Jácome


     Se tem um ditado que cabe bem para Flávio Josefo é este: "bem ou mal, mas falem de mim!" A figura de Josefo é admirada, mas muito contestada e questionada. Na verdade, ele conseguiu uma rápida adaptção ao contexto histórico da sua época, conforme comentários a  seu respeito. Vejamos alguns:
 
Flávio Josefo, ou José ben Mathias (...) [é] sem dúvida a fonte mais importante para a história do povo judeu no século I E.C.
                   Harold W. Attridge (CRINT 2.2.185) 
 
Josefo (...) é capaz de inventar, exagerar, distorcer, ocultar, simplificar e, às vezes, de dizer a verdade. Muitas vezes é difícil saber com certeza onde acaba uma dessas práticas e começa a outra.
                  Shaye J. D. Cohen (1979, 181)    
 
Josefo é ainda menos confiável historicamente quande ele próprio teve uma participação ativa nos eventos que descreve.
                   David M. Rhoads (15)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Prática religiosa

Por Rafael Jácome
 
     Os movimentos taumatúrgicos representam uma reação religiosa divergente - uma reação religiosa sectária - principalmente por causa dos novos procedimentos rituais e formas organizacionais que introduz. Acabam tomando a forma de um protesto contra a prática religiosa tradicional - que por si só já tem um caráter taumatúrgico - pois propõem novas medidas e (muitas vezes) novas concepções das relações sociais em oposição às antigas. Enquanto "protesto", estes movimentos são como críticas veladas aos procedimentos anteriores, e não uma condenação explícita A sua prática, no entanto, muitas vezes já é o bastante para mostrar pelo menos uma rejeição temporária aos procedimentos antigos e áquele que os controlam (...). A crença taumatúrgica não é apenas uma forma primitiva da orietação religiosa: ela é mais persistente do que o milenarismo. Os pequenos fracassos da magia não pertubam tanto os crentes quanto o grande fracasso periódico do milênio, e são mais fáceis de se explicar.
                          ( Bryan Wilson - 192, 492-493 )

A ligação entre o templo e o sectarismo

Por Rafael Jácome


     A íntima ligação entre o templo e o sectarismo também pode ser percebida pelo fato dos estágios mais importantes do desenvolvimento do sectarismo judeu coincidirem com os estágios da história do segundo templo. As seitas surgem de forma incipiente no período persa, quando o templo recém construído estava tentando estabelecer a sua legitimidade. Elas já estão completamente desenvolvidas no século II a.E.C., depois do templo ter sido profanado por Epifanes e purificado pelos macabeus. As seitas desaparecem depois de 70 E.C., pois a destruição do templo eliminou um dos grandes pontos focais do sectarismo (...). No judaísmo antigo, a alienação sectária, qualquer que fosse a sua origem, costumava se expressar através de polêmicas dirigidas contra as instituições centrais da sociedade (principalmente o templo), suas figuras de autoridade (principalmente os sacerdotes) e suas práticas religiosas (principalmente a pureza, o sabá e a lei do casamento). A "pedra de toque" do sectarismo não era a teologia, e sim a pratica.
 
                                    (Shaye J. D. Cohen, 1987)

A exclusão social

Por Rafael Jácome


     O que acontece quando uma sociedade possui uma estrutura em que parte de seus membros sente-se sistematicamente excluída dos meios de redenção, a ponto de achar que não vai conseguir "chegar lá" dentro da situação em que se encontra, ou seja, não vai conseguir salvação? Nesse momento é de se esperar que surjam estratégias para desobstruir o acesso ao poder. A natureza dessas estratégias vai depender do tipo de sociedade e das formas de privação que são percebidas. Revoluções políticas, cruzadas, bruxaria e milenarismo são apenas algumas das possibilidades. Caso surjam atividades e movemnetos milenaristas, eles se desenvolverão de acordo com um padrão identificável.
 
    (Sheldon R. Isenberg {28})

As Facetas de Flávio Josefo

Por Rafael Jácome


     Não tem como rotular o historiador Flávio Josefo de defensor dos governos romanos e lacaio da dinastia flaviana ou rejeitá-lo como um traidor dos judeus. Mas ele conseguiu se tornar pró romano para se tornar anti romano, nem deixou de ser antijudaico para se tornar um pró judaico. Ele assumiu todas estas facetas e é preciso prestar atenção em momento dessa linha de transformação e desenvolvimento se encontra um texto específico de sua autoria. Vejamos algun^:
 
Posso afirmar sem o menor receio, então, que apresentamos ao resto do mundo um grande número de belas idéias. Pode haver uma justiça mais elevada do que a obediência às leis? Não há nada mais benéfico do que a harmonia entre todos, afastando o perigo da desunião e da adversidade, da arrogância e da discórdia na prosperidade; ou desprezar a morte na guerra e se dedicar à agricultura na paz, sabendo que tudo no universo está sob os olhos e a direção de Deus.
       (Josefo, Contra Ápion, 2.293-294)
 
Se me detive tempo demais neste assunto, a minha intenção não era louvar os romanos, mas sim consolar aqueles que foram conquistados por este povo e desencorajar outros que estejam tentados a se revoltar.
        (Josefo, A guerra dos judeus, 3.108-109)
 
Era necessário citar estes decretos, pois esta narrativa da nossa história foi escrita para chegar aos olhos dos gregos, para que vejam que antigamente éramos tratados com respeito e nossos governante não nos imepdiam de preservar a nossa religião e a nossa maneira de exaltar a Deus.
        (Josefo, Antiguidades judaícas, 16.174)
 
Que eu nunca me torne um prisioneiro tão abjeto a ponto de abjurar a minha raça ou esquecer as tradições de meus antepassados.
         (Josefo, A guerra dos judeus, 6.107)

Os Charlatões da Fé

Por Rafael Jácome
 
 
 
     Vários profetas foram subornados pelos tiranos da época para enganar as pessoas. Eles insistiam que o povo devia esperar o auxílio de Deus, evitando, assim, atos de deserção (....)Foi dessa maneira que os infelizes daquela época foram enganados por charlatões e falsos mensageiros da divindade.
 
  (Josefo, A guerra dos judeus, 6.286a, 288a)

A Crueldade de Nero

Por Rafael Jácome
 
 
     Assim, para desmentir os boatos, Nero encontrou novos culpados, que puniu com requintes de crueldade. Tratava-se de uma classe de homens odiados pelos seus vícios, que o  povo chama de cristãos. Christus, o homem que deu origem a este nome, foi condenado à morte durante o reinado de Tibério, por decreto do procurador Pôncio Pilatos. Com isso, essa supertição perniciosa foi temporariamente debelada,mas logo reapareceu com toda a força, não apenas na Judéia, local de origem da doença, mas também na própria capital, onde tudo o que há de horrível e vergonhoso neste mundo se reúne e encontra alguma popularidade.
 
    (Tácito, Anais, 15-44; Moore & Jackson, 4.282-283)

Jesus: Relato de Josefo

Por Rafel Jácome
 
 
     Por volta dessa época viveu Jesus, um homem sábio, se é que se deve chamá-lo de homem. Pois ele realizou feitos surpreendentes e era um mestre de pessoas que aceitam a verdade de bom grado. Conquistou a simpatia de muitos judeus e de muitos gregos. Ele era o Messias. Quando Pilatos, depois de ouvir as acusações feitas contra ele por homens da mais alta posião entre nós, condeou-o à cruz, aqueles que foram os primeiros a amá-lo não abandonaram a afeição que sentiam por ele. No terceiro dia reapareceu diante deles, de volta à vida, pois os profetas de Deus tinham previsto isso, allém de outras coisas maravilhosas a seu repeito. É a tribo dos cristãos, que recebeu este nome por sua causa, não desapareceu até hoje.
 
     Assim, ele [Anan, o sumo sacerdote] reuniu os juízes do Sinédrio (em 62 E.C., no intervalo entre os prefeitos Festo e Albino] e levou à sua presença um homem chamado Tiago, irmão daquele   que  era chamado de Cristo, junto com alguns outros.
 
(Josefo, Antiguidades judaicas, 18,63; 20,200

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Realeza de Carabas

Por Rafael Jácome
 
 
     Havia um certo lunático chamado Carabas, cuja loucura não era do tipo agressivo e selvagem, que representa um perigo tanto para o doente quanto para as pessoas à sua volta, mas sim do tipo mais calmo e gentil. Ele passava dia e noite nu na rua, sem temer o frio e o calor, e era vítima das brincadeiras das crianças e dos rapazes que não tinham nada para fazer. Os desordeiros levaram pobrediabo até o ginásio e o assentaram num lugar alto, de modo que todos pudessem ver. Colocaram em sua cabeça uma folha de papiro bem larga para formar um diadema, vestiram o resto de seu corpo com um tapete à guisa de túnica real e alguém que tinha visto um dos papiros da região atirado na rua oereceu-o a ele como um cetro. Depois dele ter recebido as insígnias da realeza numa farsa teatral e de ter sido paramentado como um rei, alguns jovens carregando varas nos ombros perfilaram-se ao seu lado, imitando uma guarda real. Mais pessoas se aproximarm, e algumas fingiam saudá-lo, outras fingiam buscar uma audiência por alguma questão judicial, ou para consultá-lo a respeito de negócios de Estado. Depois, do meio da multidão à sua volta, partiu um brado tremendo saudando-o como Marin, que segundo alguns é o nome que se dá a "senhor" na Síria. Todos sabiam que Agripa tinha nascido na Síria e era rei de uma grande região daquele país.
 
(Filon de Alexandria, Flaco, 32-34; Colson, 320-25)

A Autoridade de Jesus

Por Rafael Jácome


     As pessoas temiam que aceitar a mensagem escatológica eliminaria a importância de Suas palavras para o nosso tempo; daí a ansiedade com que se procurava nelas elementos que não teriam um conteúdo escatológico. (...) Na verdade, porém, o que há de eterno nas palavras de Jesus deve-se ao fato delas estarem baseadas numa visão escatológica de mundo e conterem os pensamentos de uma mente para a qual o mundo contemporâneo, com as suas circunstâncias históricas e sociais, não tinha mais existência. Elas são apropriadas, então, a qualquer mundo, pois em qualquer mundo podem despertar o homem que se atreva a encarar o seu desafio e não distorce o seu significado, tornando-se ocas e vazias. Trata-se de uma mensagem acima do mundo e do tempo  de qualquer homem, que o liberta por dentro, de modo que fique apto para, em seu próprio tempo e mundo, tornar-se um simples canal do poder de Jesus. (...) Por que poupar o espírito  humano da tarefa que lhe foi apontada: lutar através da negação do mundo proposta por Jesus, combater ao Seu lado a cada passo do caminho, contra o valor dos bens materiais e intelectuais, num conflito sem desccanso?
 
     Albert Schweitzer, A busca do Jesus histórico (1968 - 402)

Adão homem sábio

Por Rafael Jácome


    O primeiro homem era sábio, pois possuia o saber que lhe fora ensinado pelos próprios lábios da Sabedoria, uma vez que fora criado por mãos divinas. além disso, ele era um rei, e cabe a um rei dar um nome a seus diversos subordinados [como Adão nomeou os animais].
 
Filon, Sobre os sonhos, 2-243-244; Colson et al., 1.116-117

A Alma que Ama a Deus

Por Rafael Jácome


     Pois a alma daquele que ama a Deus realmente salta da terra para os céus e voa até as alturas, ávida para ocupar o seu lugar nas fileiras e compartilhar a marcha ordenada do sol e da lua, e da sagrada e harmoniosa procissão das outras estrelas, organizada e liderada pelo Deus Cuja realeza ninguém pode usurpar, a realeza através da qual tudo é governado com justiça.
 
(Filon, As leis especiais, 1.207; Colson et al., 7.216 -217)

Deus é o rei do Universo

Por Rafael Jácome


     De quem é o anel, o penhor da fé, o selo do universo, a idéia arquetípica que moldou todas as coisas que antes eram sem forma e qualidade? De quem é a corda, isto é, a ordem do mundo, a cadeia do destino, a correspondência e a sequência de todas as coisas, na sua corrente inquebrável? De quem é o cajado apoiado com firmeza, que não treme, nem se dobra, a advertência, o castigo, a disciplina; o cetro, a realeza, de quem são? Não são de Deus, apenas?
 
(Filon, Sobre a mudança de nomes, 135-136; Colson et al. 5.210-213)

A Fé Mística e a Prudência Prática

Por Rafael Jácome
 
 
     Alguém que seja um pouco visionário místico exerce a sua influência apenas sobre outros visionários, e essa influência logo passa. O homem dotado de uma sabedoria prática, alerta apenas para questões materiais, influencia apenas o cérebro e não toca o coração - e nunca se conseguiu fazr nada de grande neste mundo sem que o coração, profundamente emocionado, participasse desse processo. Só quando a fé mística está aliada a prudência prática obtêm-se resultados fortes e duradouros. Jesus de Nazaré exerceu uma influência desse tipo sobre os seus discípulos e, através deles, sobre as gerações futuras.
 
Joseph Klausner, Jesus de Nazaré (1925,411)

terça-feira, 19 de março de 2013

CARISMA

Por Rafael Jácome


    O termo carisma expressa mais uma relação do que uma qualidade pessoal. Essa relação envolve a aceitação de um lider por um grupo de seguidores, uma sanção de sua personalidade e uma investidura de poder por parte da sociedade. (...) Carisma é um conceito sociológico, e não psicológico (...) [ele] expressa um equilíbrio entre reivindicação e aceitação. Não se trata de um conceito dinâmico, que apresenta a explicação causal de um fenômeno: ele se refere a uma situação que já se estabeleceu, a um momento em que o líder já foi aceito, e não ao poder de um homem para fazer com que os acontecimentos tomem uma determinada direção.

                                      Bryan Wilson (499)

NARCISO

Por Rafael Jácome

     Quando Narciso morreu, as flores do campo ficaram
desconsoladas e pediram ao rio algumas gotas d'água para chorarem por ele. "Ah!", respondeu o rio, "se todas as minhas gotas d'água fossem lágrimas, eu ainda não teria o suficiente para
chorar por Narciso. Eu o amo". "Ah!", responderam as flores do campo, "como poderias ter amado Narciso? Ele era lindo". "Ele
era lindo?",  perguntou o rio. "Quem poderia saber melhor do que tu?
Todo dia ele se debruçava em tuas margens e contemplava a sua beleza em tuas águas". "Eu o amava", respondeu o rio, "porque quando ele  se debruçava sobre as minhas águas, eu via o reflexo
de minhas águas em seus olhos".

    Oscar Wilde, "O discípulo" (Ellmann, 355-357)
 

O Templo e o Projeto de Vida e Liberdade de Deus

Por Rafael Jácome
 
    
     No Antigo Testamento Deus deixa um grande legado a humanidade: o Templo. O povo de Israel teve sua organização civil e militar durante o reinado de Davi, foi ele também o organizador do culto israelita, deixou inclusive o material e o projeto para a construção do Templo.  O que o fez, para muitos escritores, como rei ideal. Entretanto, segundo os estudiosos, foi o rei Salomão o responsável pela organização administrativa e militar. A glória de Salomão encontrada, por exemplo, no Segundo Livro das Crônicas, é uma forma de ressaltar a glória de Javé e é Ele que a partir do governo de Salomão, passa a habitar no Templo em meio a seu povo.
 
     Organização politica e organização religiosa, eis a importância do reinado de Davi. Aqui cabe um comentário: em nenhum momento deve-se deixar a política ocupar o lugar de Deus, assim como, a riqueza. Não tem espaço para os dois: ou se ama a Deus sobre todas as coisas, ou é mentira. Existe uma corrente religiosa no cristianismo e nas religiões em geral, que o explendor de Deus, por exemplo, manifesta-se em construções de enormes templos. A questão não é construir templos riquíssimos para Deus, mas de promover a liberdade e a vida do povo. Este sim,  é o projeto de Deus.
 
     Outro fator primordial para que possamos entender este texto, foi o contexto histórico dos levitas. Foram eles que antes do exílio na Babilônia, eram os responsáveis pela condução da fé no Deus e proclamavam as consequências dessa fé. Durante o período pós exílio, eles são reabsorvidos no contexto do culto como auxiliares dos sacerdotes para questões materiais ligadas ao Templo. Na Bíblia encontramos trechos citando atritos entre eles (1Rs 2.26-27). Mas, superando todas as coisas, a estrutura organizacional do Templo foi sendo formalizada, contando com a presença dos cantores e o Saltério adquire a sua importância como livro de cantos do Templo e como parte integrante da Palavra de Deus. Surgiram os guardas para o controle e orientação, que era o papel dos porteiros. (Sl 15)
 
     De qualquer forma, no  período pós exílio, o Templo é o centro da vida da comunidade sendo então dirigido pelos sacerdotes e não pela dinastia de Davi. Passa a ser a grande herança projetada por Deus e preparada por Davi. É a manutenção da tradição viva e a identidade do povo de Israel, reunido em torno de Javé, cujo projeto é liberdade e vida para todos.

 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Francisco de Assia

Por Rafael Jácome
Fonte: Terapeutas do Deserto


" Salve, rainha Sabedoria, o Senhor te guarde, com tua irmã, a santa e pura Simplicidade.
Senhora santa Pobreza, o Senhor te guarde,com tua irmã, a santa Humildade.
Senhora santa Caridade, o Senhor te guarde,com tua irmã a santa Obediência.
Vós todas, santíssimas Virtudes,
guarde-vos o Senhor.
de quem todas vós procedeis e vindes..."
Francisco de  Assis

A Pérola Cor da Noite

Por Rafael Jácome - Fonte: A via de Chuang Tzu - Vozes, 1996


" O Imperador Amarelo, vagueando,
perdeu sua pérola cor-da-noite.
Mandou a ciência procurar a pérola, mas em vão.
Mandou a análise procurá-la. em vão. Mandou a lógica, em vão.
Depois interrogou o nada e o nada a possuía!
Disse o Imperador Amarelo: 'Estranho, deveras.
O nada que não foi enviado, Que não se esforçou por achá-la,
É que possuía a pérola cor-da-noite!"3
Chuang Tzu
3. MERTON. Thomas. A via de Chuang Tzu Vozes, 1996.

Terapeutas do Deserto




"Não há oposição entre o conhecimento de si mesmo que a psicologia propõe e o conhecimento de si mesmo que a espiritualidade propõe. Porque uma psicologia que não se abre a um itinerário espiritual corre o risco de nos enclausurar e, mesmo, nos desesperar. (...) Assim, o que impressiona em um ser humano que entrou neste caminho de transformação é, ao mesmo tempo, sua grandeza e humildade. Ele sabe que é pó e que ao pó retornará. Mas sabe também que é luz e que à luz retornará. E o que é o ser humano, senão esta poeira que caminha para a luz e que dança nela? É a este caminhar, a esta marcha que nós somos convidados por Fílon de Alexandria, Francisco de Assis e Graf Durckheim. E a vocês todos, desejo uma boa caminhada, um belo itinerário, com cumes e vales a atravessar. Porque o importante mesmo é caminhar!
Jean-Yves Leloup  /  Leonardo Boff

domingo, 17 de março de 2013

O Pensamento Indiano e suas Características

Por Rafael Jácome
 
     Fui convidado pela mocidade da Igreja Assembléia de Deus, Congregação Cidade Nova 1, para dá uma palestra sobre a cultura oriental. Como será realizada em abril, começa a formular algumas idéias e compartilhar com meus amigos leitores. Aceito sugestões.
 
     Os indianos são considerados um povo filósofo entre os que formam o oriente.O seu maior destaque para o mundo da filosofia é o senso profundo do problema da vida e do mal, e a consequente desvalorização do mundo empírico em que domina o sofrimento e a morte. Apesar de suas características, ela não conseguiu, porém, dá uma solução racional a esses problemas, devido a falta de uma metafísica racional, mas concebeu e influenciou os elementos da renúncia e da ascética, para a salvação do homem.
 
     A corrente filosófica indiana influenciou por longos anos a cultura oriental. Sua duração foi desde os anos 1000 a.C até 1000 d.C, a qual cessou e deixou de ser vital, deixando brechas para a entrada do sincretismo neo-bramânico e induísta.
 
     A védica é considerada a religião mais antiga da ìndia, recebe este nome devido os livros sagrados denominados de Veda. O tema principal dela não é a adoração à divindade, mas no sacrifício. Tudo depende do sacrifício e suas divindades são naturalistas.