terça-feira, 26 de março de 2013

AS PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS NO IMPÉRIO ROMANO (SÉC. I-IV) - Parte I

Por Rafael Jácome

FONTE:
Diogo Pereira da Silva1 - http://lattes.cnpq.br/5248383186264996
 
 
     O fenômeno das perseguições aos cristãos ocorridas no Império Romano, é um dos temas da História Romana mais apropriados e relidos pela cultura ocidental. Desde romances históricos até filmes épicos como Quo Vadis, de Mervyn LeRoy (1951) entre outros.
      As perseguições aos cristãos é uma das séries de acontecimentos que se apresentam aos pesquisadores como um problema historiográfico de grande complexidade, uma vez que permite contrapor determinados paradigmas relativos à índole tolerante e integradora da cultura religiosa da sociedade romana, com a intolerância religiosa que se impôs progressivamente mais forte contra as comunidades cristãs nos primeiros quatro séculos do movimento.
      Sobre este contraponto, alguns pesquisadores buscaram responder ao seguinte problema fundamental: se a cultura religiosa romana possuía como ponto fundamental o seu caráter integrador – estabelecido por uma série de práticas religiosas, como a interpretatio (RIVES, 2007: 142-147) que permitia o aprofundamento dos processos de romanização, por que os primeiros cristãos foram perseguidos?
      Em volta desta pergunta, Geoffrey Ernest Maurice de Ste Croix (1963) e Adrian Nicholas Sherwin-White (1964), dois importantes pesquisadores da História Greco-Romana, estabeleceram um interessante debate no início da década de 1960.
       De um lado, G.E.M. de Ste Croix, propunha que as perseguições aos cristãos se baseavam na recusa deste grupo em reconhecer os deuses de Roma, o que era visto como um comportamento perigoso e sedicioso. Afinal, os deuses tradicionais do panteão greco-romano eram as divindades principais da religião pública de Roma, que se não fossem cultuadas, mesmo que por apenas uma parcela da população, poderiam se enraivecer devido à quebra

da pax deorum, a "paz dos deuses" (Ste. CROIX, 1963: 24).
Esta é também conhecida como hipótese da manutenção da

pax deorum, que se baseia em registros documentais de apologias e cartas dos Pais da Igreja que descrevem a situação de ira popular contra os cristãos, após cada desastre que porventura viesse a cair sobre o Império Romano.
      Embora o grupo governante do Império Romano fosse formado por homens educados, Ste Croix propôs que a perseguição se relacionava ao sentimento religioso da época supersticiosa na qual eles viviam (Ste. CROIX, 1963: 29-31), tese apresentada por E.R. Dodds (1990).
      Por sua vez, A. N. Sherwin-White (1964: 25) propôs que as perseguições aos cristãos se baseavam não na questão do rompimento da

pax deorum, mas na contumacia, isto é, na obstinação ferrenha dos cristãos em não cometer apostasia nem sacrificar para as divindades do panteão greco-romano. Segundo Sherwin-White, tal postura dos cristãos desafiava as autoridades romanas, e poderia minar o seu poder através da desobediência, conforme pode ser visto nas Cartas de Plínio, o Jovem, a Trajano (Plínio o Jovem, Cartas X, 96-97).
      Após a tréplica de G.E.M. Ste. Croix (1964), a disputa entre estes dois pesquisadores arrefeceu, entretanto, a questão norteadora do artigo de Ste Croix ainda se mantém, afinal, por que os cristãos foram perseguidos pelas autoridades romanas?
     Durante o século XX, os historiadores se dividiram entre estas duas propostas, ora tendendo a uma delas, ora mantendo uma postura de aceitar os pontos fortes de cada um dos pesquisadores.

    Além destas duas posturas principais, cabe salientar a proposta recentemente apresenta por Paul Veyne, em um artigo denominado
culto, piedade e moral no paganismo greco-romano (2009). Para Veyne, a atitude de crítica dos romanos frente às comunidades cristãs se baseava na repulsa "ao que era híbrido, impuro e ambíguo" (2009: 245). Sob este ponto de vista, que nos remete às questões de identidade cultural, podem-se inserir as perseguições no quadro dos conflitos culturais com algo que não se conhece, contra um grupo que não se sabe bem ao certo o que seja.
      Nesse sentido, Veyne propôs que os cristãos eram vistos como híbridos pelos pagãos romanos, uma vez que, possuíam as mesmas categorias de pensamentos dos demais cidadãos do Império Romano (VEYNE, 2009: 246):


"Os cristãos faziam parte do Império, mas sem os mesmos costumes, evitavam conviver com os outros, não participavam das festas ou dos espetáculos, não veneravam os deuses nacionais, seu Deus não pertencia a determinada nação, diferente do deus dos judeus. Além de querer se isolar como ma legítima diferença nacional, esse Deus pretendia superar os deuses nacionais"


      As perseguições eram causadas pela rejeição a algo inclassificável, anormal. E para justificar as ações persecutórias, os romanos lançavam mão de argumentos tradicionais, como o respeito ao

mos maiorum ("o costume dos ancestrais") e o respeito à unidade religiosa e moral da coletividade.

 


 

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