terça-feira, 26 de março de 2013

AS PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS NO IMPÉRIO ROMANO (SÉC. I-IV) - Parte II

Por Rafael Jácome

FONTE: Diogo Pereira da Silva1 http://lattes.cnpq.br/5248383186264996

    Nos aproximadamente 250 anos que separam a perseguição posta em prática pelo imperador Nero (54-68), no ano 64, e o "Edito de Galério", do ano 311, o Cristianismo era considerado uma religião ilícita e suspeita, cujos membros estavam sujeitos ao aprisionamento, à condenação e à pena capital.
    Até o século II, as ações persecutórias encontravam-se circunscritas às autoridades e ao nível das províncias romanas. Conforme observou G.E.M. de Ste Croix, o poder imperial, nesta época, não intervinha diretamente sobre a questão dos cristãos, a qual ficava a cargo dos governadores de província (STE CROIX, 1963: 7).
    Todavia, observamos no século III uma modificação no que se refere ao tratamento dispensado pelo poder imperial à questão do Cristianismo. Os imperadores
passaram a se envolver diretamente com a questão cristã, em especial Décio, Valeriano e Diocleciano.
    Segundo os nossos testemunhos documentais, o primeiro encontro entre as autoridades imperiais romanas e a comunidade cristã foi no ano 64. Caso levemos em consideração que a narrativa do livro de
Atos dos Apóstolos apresenta seu término no ano de 62, observamos que as relações entre cristãos e autoridades romanas mostravam-se sob o véu do tolerável2. Em sua chegada a Roma, Paulo de Tarso e seus seguidores eram considerados ainda, embora suspeitos, membros da comunidade judaica (At. 28:17-22); no entanto, este relacionamento mudou bruscamente em dois anos.
     Na noite do dia 18 de julho de 64, ocorreu um dos eventos mais controversos da Antiguidade Romana, um grande incêndio – favorecido pelo clima seco do início do verão, e pelos ventos – consumiu vários quarteirões da cidade de Roma. Segundo os relatos de Tácito e Suetônio, várias pessoas morreram e outras tantas ficaram desabrigadas (Tácito. Anais XV. 44, 2-8; Suetônio, Vida de Nero 38; Dião Cássio. História de Roma LXII, 16-18; Eutrópio. Breviário VII, 13).
     Todavia, a tradição documental nos indica que as suspeitas sobre o incêndio recaíram sobre o próprio imperador Nero (54-68), já que eram bastante conhecidos seus planos faustosos para fazer de Roma uma cidade digna de ser uma capital imperial. Neste sentido, relata-nos Tácito – em narrativa que dista meio século dos eventos – que:
"Nero, para desviar as suspeitas, procurou culpados, e castigou com as mais terríveis penas a certo grupo, já odiado por suas abominações, que o vulgo chamava cristãos" (Tácito. Anais XV. 44,3).
     Prenderam os que se confessavam cristãos, e puseram-lhes à morte, nos jardins que Nero, prontamente, ofereceu para o ocaso (Tácito. Anais XV. 44,7):

"O suplício destes miseráveis foi ainda acompanhado de insultos, porque ou os cobriam com peles de animais ferozes para serem devorados pelos cães, ou foram crucificados, ou os queimaram de noite para servirem de archotes e tochas ao público"
.
     Entretanto, as punições severas impostas aos cristãos geraram um sentimento de comiseração nos espectadores, e, além do mais, não exoneraram Nero de seu possível ato criminoso, pois
"não eram imolados à utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade de um" (Tácito. Anais XV. 44,8).
     Os eventos do ano 64, e as ações tomadas pelo poder imperial ressoaram por um longo período, e seus ecos podem ser vistos em Tertuliano (Ad Nationes 1,7,9;
c.f. Apologético 5,3), Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica II. 25, 1-8) e Lactâncio (Sobre a morte dos perseguidores 2, 1-8). Ademais, tais eventos são considerados como o início das ações persecutórias dos romanos contra os cristãos.
     O segundo encontro entre as autoridades romanas e os cristãos ocorreu entre 109 e 111, durante o principado de Trajano, quando Plínio, o Jovem era legado imperial na Bitínia.
     A partir de sua correspondência com Trajano, podemos inferir que a ida de Plínio à Bitínia nada tinha a ver com os cristãos, mas com questões administrativas, em especial a regulação dos
collegia – isto é, das associações entre pessoas. Alguns desses collegia foram, inclusive, banidos por Plínio (Cartas. X, 33-34; SHERWIN-WHITE, 1966: 606ss).
Em 111, Plínio deparou-se com os cristãos ("
christiani"), os quais foram trazidos perante ele. Em sua carta a Trajano, Plínio declarou que não tomou parte de quaisquer investigações contra os cristãos, nem estava familiarizado com a natureza dos crimes que lhes eram atribuídos, no entanto, não hesitou em ordenar a execução daqueles que persistiam em afirmar por três vezes seu pertencimento ao grupo dos cristãos (Plínio o Jovem. Cartas X, 96-97; SHERWIN-WHITE, 1966: 693-700; Ste CROIX, 1963:9). Quanto a isto, não possuía dúvidas, uma vez que sua "a obstinação e a firme perversidade mereciam ser punidas" (Plínio o Jovem. Cartas X, 96).
     Entretanto, ocorreram complicações. Panfletos anônimos denunciavam uma série de indivíduos de tomarem parte dos ritos cristãos; frente a isto, Plínio se pôs a investigar e interrogar os denunciados. Aos inquiridos que negavam ser cristãos, exigia-se-lhes que recitassem uma invocação aos deuses, seguida de libações de vinho e oferecimento de incenso, e, por fim, que insultassem o nome de Cristo; após o qual estavam livres (Plínio o Jovem. Cartas X, 97,1).
     Plínio estabeleceu uma série de disposições, como a proibição do encontro das assembléias, e conclui sua carta a Trajano, escrevendo sobre como os templos que
Outrora estavam esvaziados se viram novamente repletos, e como os ritos sagrados foram novamente revividos.
     A resposta de Trajano, assertiva, por certo, é uma síntese das ações já tomadas por Plínio; os cristãos não deveriam ser tratados como os criminosos comuns, sacrílegos ou bandidos, embora ainda estivessem em estatuto de ilegalidade perante a lei romana, e, caso fossem acusados, deveriam ser punidos (Plinio, o Jovem. Cartas
. X, 97; SHERWIN-WHITE, 1966: 710–12). Certamente, que a rejeição das acusações anônimas diminuiu a quantidade de denúncias.
      Pode-se notar que este momento se impôs como crucial nas relações entre as autoridades imperiais romanas e as comunidades cristãs, de tal modo que o rescrito de Trajano – contido na correspondência de Plínio, o Jovem – foi aplicado largamente durante o século II, tal qual podemos inferir do
Apologético de Tertuliano (Apologético 2, 4-9), e na narrativa que Eusébio de Cesareia fez da perseguição aos mártires de Lião e Viene, na Gália no ano de 177, no principado de Lúcio Vero e Marco Aurélio (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. V, 1, 1-63).
     Não obstante a sua contradição – outrora já demarcada por Tertuliano (Apologético 2, 4-5)
3 –, a de não perseguir os cristãos, ao mesmo tempo em que se deveria aplicar a punição aos que porventura caíssem às mãos das autoridades; o rescrito de Trajano proveu as autoridades romanas das orientações que deveriam tomar em relação às comunidades cristãs.
      Decerto é significativo o fato de que os provinciais se erguiam contra as comunidades cristãs, o contexto em que se encontrava parecia demonstrar a incompatibilidade entre o monoteísmo e a moral dos cristãos e o modo de vida dos demais membros da sociedade; posto que o culto ao imperador, à deusa Roma, às grandes divindades provinciais, e às pequenas divindades garantia a felicidade e a manutenção do Império Romano (Ando, 2008: 120-148; Rives, 2007: 105-157; MacMullen, 1984: 10-16).









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