terça-feira, 26 de março de 2013

AS PERSEGUIÇÕES AOS CRISTÃOS NO IMPÉRIO ROMANO (SÉC. I-IV)- Parte III

Por Rafael Jácome
 
FONTE: Diogo Pereira da Silva1 - http://lattes.cnpq.br/5248383186264996
 
     A população pagã do Império Romano não demonstrava muita simpatia pelos cristãos; tal qual se apresenta no Apologético, de Tertuliano, a primeira causa das ondas persecutórias em Cartago foi a fúria da população local. E o apologista arremata seu argumento com uma de suas sentenças mais conhecidas (Tertuliano. Apologético 40,1):
"Se o Tibre chega às muralhas, se o Nilo não se eleva até os campos, se o céu não provê chuva, se há terremotos, se há fome ou peste, imediatamente grita-se, „Os cristãos ao leão‟. Tantos para um?"
     Neste sentido, podemos observar o desenvolvimento do seguinte fenômeno: os cristãos se converteram no decorrer do século III, nos principais inimigos internos do Império Romano, dos valores romanos, perturbavam a
paz dos deuses, e punham em risco a manutenção da própria res publica.
     Tal pensamento foi recrudescido pelo aumento das pressões germânicas sobre o Império. E, em 250, o imperador Décio emitiu um decreto no qual obrigava a todos os cidadãos do Império Romano a efetuar sacrifício aos deuses tradicionais perante uma autoridade imperial, da qual receberia um certificado, o
libellus (Daniélou, Marrou, 1966: 213-214; Rives, 2007: 199).
     Após o decreto imperial, importantes líderes das comunidades cristãs foram perseguidos, postos em fuga – como Cipriano de Cartago (Epístolas 2,1) –, ou martirizados – como Fabiano de Roma (Cipriano de Cartago. Epístolas 75,3) e Bablas de Antioquia (História Eclesiástica VI. 39, 4).
     A partir da documentação que nos está disponível – em especial as Epístolas de Cipriano de Cartago, e a História Eclesiástica, de Eusébio de Cesareia –, podemos observar como a política imperial alcançou um relativo, e rápido, êxito. As comunidades "decapitadas" – pois seus líderes ou estavam escondidos, ou mortos –, caíram na apostasia, como o caso bem documentado de Cartago, onde os cristãos negavam sua religião, e, em seguida, efetuavam os sacrifícios (Cipriano de Cartago.
Tratado sobre os apóstatas 8).
      Sete anos após a morte de Décio, em 257, Valeriano promulgou dois editos em conjunto com o Senado de Roma, que estabeleceram as diretrizes da perseguição e a ilicitude do Cristianismo. As autoridades romanas não tinham dúvidas do caráter hostil do Cristianismo em relação à res publica. A perseguição promovida por Valeriano objetivava a destruição das comunidades cristãs a partir do confisco de seus bens e da destruição física de suas principais lideranças e notáveis.
      A partir dos testemunhos de Cipriano de Cartago (Epístolas 76-79), percebemos que os notáveis das comunidades foram, quando não exilados, condenados às minas (
damnatio ad metalla), e os libertos ou escravos eram diretamente postos à morte. Por certo, antes do fim de 258, o bispo de Cartago, Cipriano, foi martirizado (Cipriano de Cartago. Epístolas 82).
     Ao que se pode depreender dos testemunhos, a perseguição de Valeriano parece ter sido mais rígida no Norte da África, que em outras regiões do Império; e, em 260, eis que a situação mudou favoravelmente aos cristãos. O imperador Valeriano, que comandava as tropas romanas em luta contra os exércitos de Sapor II, caiu nas mãos dos persas sassânidas. Prisioneiro, o imperador passou o resto de seus dias como escravo pessoal do xá persa (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VII, 13,1; Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores 5,2-5). E, pouco tempo depois, Galieno (253-268) – filho e co-imperador de Valeriano – promulgou um rescrito pelo qual devolvia os lugares de culto e os bens às comunidades cristãs (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VII, 13,1), embora não tivesse declarado o cristianismo uma religião lícita.
      Para esta "Pequena Paz da Igreja", infelizmente, possuímos apenas os relatos contido na História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia. Contudo, podemos afirmar que neste período de desorganização administrativa do poder imperial romano, o Cristianismo fincou raízes profundas, e espalhou suas tramas, de tal forma, que nem o grande esforço persecutório de Diocleciano – e de alguns tetrarcas – foi capaz de eliminar as comunidades cristãs.
      No ano 284, Diocleciano foi aclamado imperador, e teve de lidar com vários problemas políticos e militares – como a paz com os persas, as invasões germânicas no limes Reno-Danubiano e o movimento bagáudico (Silva, Mendes, 2006: 198; Rodrigues Guervas, 1991; Van Dam, 1985: 7-56).
      Em curto prazo, a solução posta em prática por Diocleciano para consolidar a sua posição, e fazer frente aos problemas, foi o exercício colegiado do poder imperial, conhecido pela historiografia como Tetrarquia: um sistema político que baseava na promoção da concórdia e da uniformidade.
      Entre os anos 293 e 303 ocorreram importantes reformas como a divisão e reorganização das províncias, as quais estariam agrupadas em dioceses (Anderson, 1932: 24-32; Baynes, 1925: 195-208; MacMullen, 1964: 305-316), o aumento do número de legiões, fixação dos preços, através do Edito de Máximo (Jones, 1953: 293-318; Michell, 1947: 1-12; West, 1939: 239-245) (do ano 301), que embora não tenha logrado êxito, demonstra a proposta de uniformização e unificação que embasava as ações de Diocleciano.
      Neste contexto, qual o motivo que levou Diocleciano a mover uma perseguição contra os cristãos, após cerca de quarenta anos desde o rescrito de Galieno? Já que conforme nos recorda Moses I. Finley (1991: 170):
Cristãos ocupavam cargos públicos, e eram leais (ou tão indiferentes) ao Império como qualquer outro grupo, não havia nenhuma grande pressão popular no sentido de eliminá-los, no sentido de torná-los bodes expiatórios da peste e da fome; em suma, não havia nenhum motivo político ou social visível para que Diocleciano, quase ao final de seu reinado, decidisse esmagar essa religião.
      Para Paul Veyne, por volta do ano 300, Diocleciano buscou estabelecer por decreto a pureza moral no Império Romano, alegando que o respeito às veneráveis e puras normas das leis romanas fariam com que os deuses fossem mais indulgentes com Roma ao "virem que todos os súditos do imperador levam uma vida piedosa, devota, tranqüila e pura" (VEYNE, 2009: 245).
      Por conseguinte, no ano 303, o Cristianismo se apresentava perante Diocleciano (284-305) e a Tetrarquia como o último obstáculo à unidade e à concórdia que embasavam as políticas de Diocleciano citadas acima.
      No primeiro dos editos de perseguição, exigia-se que todas as escrituras e obras cristãs fossem entregues às autoridades imperiais, sob pena de aprisionamento dos que fossem contra a medida; ademais, as igrejas cristãs foram demolidas, os cristãos foram proibidos de fazer alegações em juízo (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores 12, 2; 13, 1. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. VIII, 2, 1-5). Os cristãos de alta dignidade (os
honestiores) foram privados de seus privilégios, muitos dos libertos e escravos foram aprisionados.
      Contudo, de acordo com Lactâncio – que residia em Nicomédia àquela época –, Diocleciano se opunha ao livre derramamento de sangue, e ao martírio (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 11, 3). O primeiro dos editos não comportava a ordem de sacrifícios gerais cuja negação era a morte; tal expediente apenas se tornou presente no quarto – e último – dos editos de perseguição, emitido em agosto de 304.
      Neste meio tempo, o segundo e o terceiro editos foram promulgados. O segundo ordenava o aprisionamento dos bispos, diáconos e clérigos; o terceiro – que coincidiu com a celebração da
vicennalia de Diocleciano, celebrada em Roma –, dispunha que apenas após o efetuar um sacrifício o cristão estaria livre da prisão (Barnes, 1981: 23-24).
      No ano 304, observamos ao recrudescimento da perseguição em decorrência de um incêndio ocorrido no palácio de Nicomédia. Tal episódio nos foi relatado por Eusébio de Cesareia, Constantino e Lactâncio (Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VIII, 6, 6; Constantino. Oração à Assembléia dos Santos 25; Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores 14, 2), enquanto os dois primeiros conferem ao fato causas naturais, Lactâncio novamente acusa Galério de ter iniciado o fogo para culpar os cristãos, e incitar Diocleciano a promulgar o quarto edito de perseguição.
      A perseguição no Ocidente não se manteve após a abdicação de Diocleciano e Maximiano; e, no Oriente, em 30 de abril de 311, Galério – que estava sofrendo de uma terrível enfermidade (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 33, 1-11) – promulgou a sua palinódia, admitindo o insucesso da perseguição, e de suas medidas que tinham por objetivo fazer com que os cristãos voltassem a cultuar os deuses tradicionais de Roma, e permitindo que os cristãos retomassem a sua religião e seus lugares de culto. Ademais, pediu que os cristãos rezassem a seu Deus pela saúde dos imperadores, da res publica e de sua comunidade (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 34, 1-5. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica VIII, 17, 3-10).
      A perseguição se manteve, entretanto, no Oriente sob jurisdição de Maximino Daia. Este possuía uma postura extremamente anticristã, e, inclusive, fez propagar os chamados Atos de Pilatos: No entanto, o "Edito de Galério", que extinguiu os editos persecutórios, e inclui o Deus dos cristãos no conjunto das divindades que salvaguardariam o Império Romano, acabou por lançar as bases para as relações que esta religião construiu com o poder imperial, no decorrer do século IV, durante e após o governo de Constantino I.
      O Cristianismo agora era uma religião lícita (religio licita). A vitória de Constantino sobre Maxêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 44, 1-12; Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica IX, 9, 1-13; Vida de Constantino I, 38-40,1-2), a conferência imperial de Milão, entre Constantino e Licínio (308-324) (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 48, 1-12; Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. X, 5, 1-14), e a posterior derrota de Maximino Daia perante Licínio (Lactâncio. Sobre a morte dos perseguidores. 46-47; 49, 1-7; Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. IX, 10. 1-5; 11, 1-7) vieram a selar o novo panorama político e religioso do Império Romano. Em 313, o Cristianismo de religião ilícita e perseguida tornou-se uma religião lícita e, a partir de Constantino, favorecida pelos imperadores romanos.
 
 
 
 

Nenhum comentário: