sábado, 6 de abril de 2013

Homossexualidade e Sexualidade na Biblia - Parte 1

Por Rafael Jácome
Fonte: Artigo extraído do Centro de Estudos Anglicanos
Autor: Izidoro Mazzarolo

 Um ponto em conflito

     O desafio de qualquer tratado exegético no campo da sexualidade ou da homossexualidade é sua capacidade de alcance e compreensão dos fatores culturais, éticos e religioso que formam a cultura de um povo. Tentar aprofundar uma reflexão neste campo significa poder penetrar todas as esferas de um conjunto de crenças, costumes, leis e tradições, dentro das quais são traçados os perfis de um “modus vivendi”. É preciso reconhecer que aqui se constitui a dificuldade maior. Sempre que alguém volta para o passado, os arquétipos atuais e sua visão da história cultural podem condicionar sua pesquisa e volta ao passado. Nosso estudo visa oferecer uma reflexão sobre as questões da sexualidade e homossexualidade, como contributo para uma visão desta temática na Bíblia.
     A homossexualidade é conhecida na linguagem antiga como uranismo  inversão genital. Na tradição
mitológica antiga eram conhecidos dois tipos de “uranismo”: a) a inversão artificial, que significava apenas um vício da relação homossexual; b) a inversão/perversão, considerada uma degeneração mental. Dentro destes dois campos, há inclinações para o homossexualismo com rejeição ao sexo oposto e há outra forma de homossexualismo que é a diferença ao sexo oposto. Para estes, a vida sexual normal produz um cansaço, repulsa e até impotência. A partir desta situação, instala-se um comportamento genital anômalo. O amor uranista (invertido) é uma caminhada normal, na esfera psíquica, uma vez que ele possui todas as fantasias, caprichos, bem como paixão e violência. Na prática, no entanto, se efemina nos homens e se
masculiniza nas mulheres. Estudos revelam que a vida sexual pervertida  dura enquanto subsistir a força genital.

Extraído da Revista “Estudos Bíblicos” (Vozes).
A origem do termo “uranismo” para caracterizar o homossexualismo é obscura. Platão afirmava que Urânia era a ninfa gerada por Urano, mas sem mãe. Urânia era a senhora do universo, representada com um globo terrestre em suas mãos. Ela tinha uma varinha, com a qual indicava a direção dos astros. Outra fonte da origem do nome pode vir da mitologia de Urano, o deus do cosmos, filho de Gea (terra), para outras filho do Mar. Segundo Cícero, Urano é pai de Vênus com Hémera. Mais tarde, Urano é mutilado por Cronos e das gotas de seu sangue nascem gigantes e ninfas (Cf. Spasa Calpe, “Uranos”).

     As origens do homossexualismo permanecem desconhecidas, mas a mitologia antiga já conhecia esta forma de comportamento. Platão definia três formas de ser humano: a) o homem; b) a mulher; c) o heterógino. Na composição do ser humano, ainda dentro da mitologia helenista, os seres tinham duas faces, quatro mãos, quatro pés, dois sexos, cada qual na posição inversa (era um duplex). O ser cujos dois sexos fossem masculinos era homem; os dois sexos
femininos era mulher e havia uma terceira opção, que tinha um sexo masculino e outro feminino (heterógino). Assim fazia-se a explicitação da homossexualidade dentro da cultura grega. Uma briga de Zeus com os humanos provocou o castigo dos mais fracos. Zeus tomou os humanos e os partiu pela metade, misturando suas partes. Daquele momento em diante, cada parte busca sua outra metade no desejo de reconstruir a felicidade original
2. Os que tinham os dois sexos masculinos, .procuram outro homem como sua metade original; os que tinham os dois sexos femininos, buscam uma mulher e os que tinham dois sexos diferentes, procuram o sexo oposto para realizar seu complemento.
     O homossexualismo é conhecido igualmente nas culturas romana e judaica. No código de ética judaica, o comportamento homossexual era considerado um desvio de conduta gravíssimo, sofrendo penalidade capital: “Se um homem se deitar com outro homem como se fosse com uma mulher, ambos cometem uma perversidade e serão punidos com a morte – são réus de morte” (Lv 20,13). Na cultura romana, o apóstolo Paulo faz referência a este estado ético que, para seus esquemas mentais, era uma afronta ao estado natural: “Por isso, Deus os entregou às paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; do mesmo modo os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo neles mesmos o preço da sua aberração” (Rm 1,26-27).
     Desta forma, nota-se a antigüidade do homossexualismo. A cultura grega cria mitos para explicar esta forma de comportamento. A cultura romana cria leis jurídicas para coibir a incidência destes casos e o judaísmo estrutura um código de ética que insere a pena máxima. No entanto, a homossexualidade, independentemente de aceita ou condenada, constitui-se, ainda hoje, um fenômeno obscuro, uma trilha sinuosa e sem saída.

 

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