sábado, 11 de maio de 2013

A retórica entre política e filosofia

Por  Bento Antonio

Universidade da Beira Interior - Portugal
Argumento

A Apologia é o discurso pronunciado por Sócrates no tribunal, diante dos 501 juízes sorteados para o julgarem. é uma composição de génese escritural, que deverá ter alguma relação com o discurso eventualmente pronunciado por Sócrates, mas que dificilmente se poderá entender como uma sua transcrição fiel. A ironia marca-a profundamente, pois, caracterizando-se como uma peça contra
a retórica, nem por isso – antes pelo contrário – ignora as regras da arte. Na realidade, é como se as reconstituísse num outro plano, procurando conferir-lhes um novo sentido. No entanto, a denegação de todo e qualquer valor epistemológico à persuasão traduz-se tragicamente para Sócrates no facto mesmo da sua condenação à morte. Aplica-se aqui, à letra, a expressão ironia do destino. Ao recusar-se a persuadir, sob o modo retórico, os juízes e a assistência, insistindo obstinadamente em dizer a verdade, nada mais que a verdade e só a verdade, Sócrates acaba por assinar a sua própria condenação à morte. A verdade, porém, é que Sócrates não prescindiu, para sua defesa, de usar os meios retóricos da linguagem.
Nem podia prescindir. Pela simples razão de que, opondo a persuasão à verdade, não poder deixar de ser persuasivo: correndo assim o risco de ninguém o compreender e acreditar. Em qualquer caso, o ter-algo-por-verdadeiro pressupõe a crença na existência da verdade e, como tal, não pode prescindir do efeito da persuasão. Simplesmente a sua verdade e a opinião do verdadeiro na audiência e nos juízes que o escutavam não coincidiu. Azar o dele! Sócrates acabou por se defender usando as mesmas palavras que costumava usar na praça, junto dos vendedores, argumentando, para sua defesa, que era estranho ao modo como se fala num tribunal. O que significa que afrontou, desprezou e insultou o tribunal sugerindo ou insinuando que nele não se procura a verdade, antes o efeito da opinião e da persuasão. Letal acusação. É o seguinte, o resumo do diálogo:
17 a – 18 a – Contraposição da persuasão à verdade, nos discursos da acusação e do próprio Sócrates: a excelência do orador consiste em dizer a verdade.
18 a – 20 a – Distinção das antigas e das mais recentes acusações: a sua motivação.
20 a – 20 c – O tema da sabedoria: a aretê num homem.
20 c – 21 b – O oráculo: Sócrates é o mais sábio dos homens
21 b – 23 b – As inquirições socráticas: a sabedoria da ignorância – o valor nulo da sabedoria humana.
23 b – 24 a – A origem das calúnias: a filosofia e o seu efeito sobre os jovens.
24 b – 26 a – As recentes acusações: interrogatório de Meleto.
António Bento, A retórica entre a política e a filosofia 4
26 a – 28 a – Conclusões de Sócrates: Meleto não se preocupa com a educação dos jovens e é ignorante no que diz respeito às coisas divinas.
28 a – 30 b – A inquirição sobre o valor da sabedoria humana, realizada em obediência ao comando implícito do deus, constitui a prática do filósofo, que Sócrates toma como a mais alta das missões que lhe foram confiadas e de cujo cumprimento não desistirá.
30 c – 33 a – Sócrates é o único homem disposto a persistir nessa missão, em defesa da sua cidade; por essa razão, renunciou aos cargos políticos, embora, sempre que estes lhe tenham sido atribuídos, se tenha mostrado tal como é na vida privada.
33 a – 35 d – Sócrates não é pago, nem há testemunhas de que tenha corrompido alguém, jovem ou velho. Recusa-se a suplicar o perdão dos juizes, entregando-se à sua decisão e à dos deuses.
Sócrates é julgado culpado, devendo agora propor uma pena em alternativa à morte, pedida pelos acusadores.
35 d – 38 b – De entre as penas possíveis, Sócrates considera o exílio ou o pagamento de uma multa, embora contra vontade, pois, nenhum crime tendo cometido, nenhuma pena julga merecer. Recusando o exílio, aceita uma multa no valor de uma mina (mais não poderá pagar), mas os amigos pedem-lhe que eleve para trinta minas o seu montante. Condenado à morte, Sócrates dirige-se aos juízes que abandonam o tribunal e, depois, aos amigos que o rodeiam.
38 c – 39 d – Os juizes não quiseram esperar pela sua morte natural, que não deveria tardar. Nada ganharam com essa decisão, pois ele não teme a morte e os discípulos deverão prosseguir a missão que lhe tinha sido confiada.
39 e – 42 a – Sócrates está certo de tudo ter corrido pelo melhor, pois a voz que costumava adverti-lo, na iminência do erro, não se manifestou. Assim, a morte deverá ser um bem – a destruição ou a passagem da alma a outro lugar – em qualquer dos casos não podendo sobrevir nenhum mal a um homem justo. é preciso ter esperança no que a morte nos traz, pois só os deuses poderão saber se ela é ou não melhor do que a vida.

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