sexta-feira, 17 de maio de 2013

Leonardo Boff: Mate as imagens e Deus aparecerá

Por Rafael Jácome
Do frei Leonardo Boff


  Nossa época se caracteriza por uma suspeita geral con­tra todos os discursos que tentam traduzir o definitivamen­te importante e o radicalmente decisivo da vida humana. A crítica colocou em xeque todas as nossas idéias sobre Deus. Ela ganhou corpo nas famosas críticas feitas pelos mestres da suspeita - Freud, Marx e Nietzsche -, pela secularização, pela desmitologização, pela tentativa de tradução se­cular dos conceitos religiosos, pela teologia da morte de Deus, pelo esforço de desmascaramento da função ideoló­gica assumida pelas religiões, a fim de justificar o status quo social ou para preservar, nos países mantidos no subdesen­volvimento, um tipo de sociedade injusta e discriminatória da urgência da revolução; ganhou corpo também na críti­ca às Igrejas carismáticas e populares que obedecem à lógi­ca do mercado e veiculam uma religião mais como entre­tenimento que apelo à conversão e à interiorização.
          Face a esta crise generalizada, não são poucas as vozes que admoestam: "Paremos um pouco. No âmbito do pensamento-raiz, façamos economia da palavra Deus. Guarde­mos silêncio. Experimentemos aquele Mistério que circunda e penetra nossa existência. Só a partir disso tentemos balbuciar-lhe um nome que não será o seu nome, mas o nome de nosso amor e de nossa reverência Aquele que é o Sem-Nome e o Inefável." Não era outra coisa que pedia um fino poeta e místico cristão italiano, David Turodlo, em seu poe­ma "Para além da floresta": "Irmão ateu, nobremente em­penhado na busca de um Deus que eu não sei te dar, atra­vessemos juntos o deserto! De deserto em deserto, ande­mos para além da floresta das diferentes fés, livres e nus rumo ao Ser nu. Ali onde a palavra morre, encontrará nos­so caminho seu fim."
        O esforço do nosso ensaio sobre a experiência de Deus se orienta na busca do sentido originário da palavra Deus, encoberto sob muitos nomes e fossilizado nas doutrinas so­bre Deus. Para nos situarmos na via da experiência de Deus, precisamos conscientizar o trabalho desconstruitivo já ope­rado em nossa civilização concernente a todas as idéias e representações sobre Deus. Não superamos a crise das ima­gens de Deus criando novas e, pretensamente, mais ade­quadas ao espírito do tempo. Isso apenas perpetua a crise porque, ingenuamente, se assume aquela estrutura gera­dora de imagens de Deus que a crise precisamente quer questionar. Essa estrutura é a vontade de sempre procurar imagens melhores sem sair desta lógica de substituição de umas imagens por outras. Não devemos identificar aquela força originária que está aquém e além das imagens, força que nos coloca no encontro vivo com Deus e que está sem­pre na origem de todas as imagens? Essa é a questão funda­mental. Portanto, não é fugindo da crise para o mundo anterior a ela que superaremos a crise, mas entrando den­tro dela e radicalizando-a ainda mais até identificarmos a experiência originária de Deus. Entretanto, tenhamos des­de o início uma perspectiva correta: como não se comba­tem imagens de Deus com outras imagens, assim também não se processa a experiência de Deus negando sistemati­camente todas as representações de Deus. Devemos atraves­sá-las e assim superá-las. Em outras palavras, importa mais falar a Deus do que falar sobre Deus. Mais que pensar Deus com a cabeça é preciso sentir Deus com o coração. É o que significa experimentar Deus. 

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