sábado, 11 de maio de 2013

O conflito entre o filósofo e a pólis - A Tirania da Verdade

Por Bento Antonio
Universidade

O conflito entre o filósofo e a polis havia chegado a um ponto crítico porque Sócrates fizera novas reivindicações para a filosofia, precisamente por não se pretender um sábio. E é nessa situação que Platão concebe a sua tirania da verdade, segundo a qual o que deve governar a cidade não é o temporariamente bom – de que os homens podem ser persuadidos -, mas sim a eterna verdade – de que os homens não podem ser persuadidos. Mas, se os homens não podem ser persuadidos da eterna verdade, que é o que deve governar a cidade, como justificar o lugar da filosofia nos assuntos da polis? Ora, o que se tornara manifesto na experiência de Sócrates é que apenas a governação poderia assegurar ao filósofo aquela imortalidade terrestre que a polis deveria supostamente assegurar a todos os seus cidadãos. E isto porque enquanto o pensamento e as acções de todos os homens estavam ameaçados pela sua instabilidade intrínseca e pelo esquecimento humano, os pensamentos do filósofo estavam expostos a um esquecimento deliberado. 

A mesma polis, portanto, que garantia aos seus habitantes uma imortalidade e uma estabilidade, que, sem aquela, eles jamais poderiam esperar, era uma ameaça e um perigo para a imortalidade do filósofo. é, porém, verdade, que o filósofo, na sua relação com as coisas eternas, era aquele que menos sentia a necessidade da imortalidade terrestre. Essa eternidade, que era mais do que uma imortalidade terrestre, entrava, no entanto, em conflito com a polis sempre que o filósofo tentava chamar a atenção dos seus concidadãos para as suas preocupações. Assim que o filósofo submetia à polis a sua verdade, o reflexo do eterno, esta tornava-se imediatamente uma simples opinião entre opiniões. Perdia, então, a sua qualidade distintiva, uma vez que desaparecia qualquer marca que separasse a verdade da opinião. é como se no momento em que o eterno fosse posto entre os homens ele se tornasse temporal, de modo que o simples facto de se o discutir com os outros era suficiente para ameaçar a existência do domínio em que se movem os amantes da sabedoria. Como refere Arendt citando Madison,
“a passagem da verdade racional à opinião implica uma passagem do homem no singular aos homens no plural; o que quer dizer uma passagem de um domínio em que (...) apenas se conta o ‘sólido raciocínio’ de um espírito, para um domínio em que ‘a força da opinião’ é determinada pela confiança do indivíduo no ‘número
que é suposto ter as mesmas opiniões” (Arendt, H., Verdade e Política, p. 20).

Ora, parece ter sido no processo de reflexão sobre as implicações do julgamento de Sócrates que Platão chegou ao seu conceito de verdade, o oposto de opinião, e também à noção de uma forma de falar especificamente filosófica, a dialegesthai, oposta à persuasão e à retórica. A dialegesthai, de onde deriva a palavra dialéctica, que significa “falar com”, “discorrer”, “raciocinar”, pressupõe interlocutores – exactamente como ocorre no modo de filosofar da obra platónica, designada, aliás, por uma palavra da mesma
família: diálogo. Por isso se pode dizer que o termo dialéctica não significa originariamente nada mais do que o processo de discussão oral por meio de pergunta e resposta. Ainda assim, a palavra passou do simples significado de “discorrer” para o de “discorrer com o fim de atingir a verdade”, e este “discorrer” pode executar-se
através de palavras entre duas pessoas ou ser “o diálogo silenciosamente conduzido pela alma consigo mesma” (Sofista 263 e).

Ao começar a Retórica – que pertence, tanto quanto a ética, aos seus escritos políticos -, Aristóteles considera estas distinções e oposições como factos usando a seguinte afirmação : hé rhétoriké esti’ antistrophos té dialektiké “a arte da persuasão – e, portanto, a arte do falar político – é a contrapartida da arte da dialéctica – a arte do falar filosófico” (Retórica, 1354 a 1.). Ora, a principal distinção entre persuasão e dialéctica é que a primeira dirige-se sempre a uma multidão ao passo que a segunda só é possível em um diálogo a dois. Em a Apologia de Sócrates o erro de Sócrates foi, por  conseguinte, dirigir-se aos seus juizes de forma dialéctica, motivo pelo qual não pode persuadilos.

Por outro lado, uma vez que ele respeitou as limitações inerentes à persuasão, a sua verdade tornou-se uma opinião entre opiniões, sem mais valor que as não verdades dos juizes. Como já vimos, Sócrates insistiu em discutir o assunto com os seus juizes do mesmo modo que falava de qualquer outra coisa, quer com cidadãos atenienses, individualmente, quer com os seus alunos; acreditava que podia
chegar por esse caminho a alguma verdade e que dela pudesse persuadir os outros.

A persuasão, entretanto, não vem da verdade, mas das opiniões (Fedro, 260 a), e só a persuasão leva em conta e sabe lidar com a multidão. Persuadir a multidão significa impor a sua própria opinião às múltiplas opiniões da multidão. Nesta maneira de a entender, a persuasão não é o oposto de governar pela violência, é apenas uma outra forma de fazer o mesmo.

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