sábado, 8 de junho de 2013

A Justificação pela fé - As diferenças entre as duas tradições, luterana e calvinista, para fins didáticos

Por Rafael Jácome
Fonte: Heber Carlos de Campos

1. Diferença Quanto à Extensão da Justificação

a) Embora na teologia luterana a doutrina da justificação pela fé seja o articulus stantis et cadentis ecclesiae, controlando todas as outras doutrinas, inclusive as relacionadas com a soteriologia, o aspecto da sua extensão está na dependência de uma outra importante doutrina do esquema teológico luterano — a doutrina da Graça Universal, isto é, a doutrina que ensina que Jesus Cristo morreu e realmente justificou o mundo. Dentro da tradição Luterana, a expressão "o mundo" deve ser entendida como "cada pessoa sem exceção". Esta doutrina exerce uma influência muito grande na extensão da justificação, dizendo que "o juízo justificante de Deus cobre todos os homens. Como Cristo morreu não somente pelos crentes mas por todos os ímpios ... todos eles foram justificados pelo seu sangue perante Deus."(31) Comentando 1 Coríntios 5.18-20, que trata da reconciliação, Theodore Engelder, um teólogo do Sínodo de Missouri, critica um outro luterano famoso, o Dr. Lenski, dizendo que: ele repudia e ridiculariza o ensino de que na manhã de Páscoa Deus perdoou realmente todo o mundo e todos os seus pecados, e que real e verdadeiramente Deus justificou o mundo. Ele protesta contra tornar a reconciliação objetiva, contra a justificação geral, querendo dizer que Deus realmente não pronunciou o mundo, e cada um dos indivíduos do mundo, realmente inocente de todo o pecado e culpa.(32)
A doutrina da justificação objetiva tem que combinar com a doutrina da graça universal. Por essa razão, McGrath comenta: Assim como pouco podemos limitar a redenção de Cristo a certos indivíduos, assim pouco podemos limitar o efeito imediato desta redenção, isto é, justificação, a esses indivíduos; pelo sangue de Cristo todos os homens são justificados.(33)
Segundo a teologia luterana, a graça de Deus é universal. Portanto, Cristo Jesus levou os pecados de todos os homens sem exceção, trazendo-lhes justificação.
Deus, então, não imputou aos homens as suas transgressões. Ele, então, perdoou todos os seus pecados, os pecados de todos eles. O ato de perdoar é um ato terminado, é cumprido, os pecados são perdoados a todos os homens. Portanto, não pregamos a respeito do perdão de pecados, mas nós pregamos o perdão em si, oferecemos aos homens um produto terminado, não uma possibilidade futura.(34)
Por essa razão, Deus não imputa mais aos homens todos os seus pecados, porque todos foram justificados em Cristo, que por eles todos morreu. Todos os homens sem exceção são declarados justos diante de Deus pelo fato de Cristo ter morrido por eles.
b) A teologia reformada da extensão da justificação tem também a mesma dependência da obra cristológica, mas a diferença está na extensão da expiação. O que faz a diferença nas duas tradições é a diferença na extensão da expiação, não o conceito de justificação. Segundo a fé reformada Deus justifica somente o seu povo, sua igreja, aqueles que pertencem a Deus, aqueles que o Pai entregou ao Filho para que por eles morresse e ressuscitasse, os chamados eleitos.
Esta doutrina reformada pode ser claramente deduzida de Romanos 8.33-34. A extensão da justificação está limitada aos eleitos de Deus, conforme o texto de Paulo: "Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica" (Rm 8.33).
Ninguém pode fazer qualquer acusação contra os eleitos de Deus, porque eles já receberam a justificação de Deus, que os torna sem débito perante a lei. Eles não mais são devedores à lei. Sua dívida foi quitada pelo "fiador" deles (Hb 7.22), que se tornou responsável pelas obrigações legais daqueles a quem ele representou. Portanto, nem o inimigo deles, Satanás, pode fazer qualquer acusação na presença de Deus, contra aqueles que têm o seu débito devidamente pago; e um pagamento que é perfeitamente aceito pelo credor, porque é pagamento de alguém que foi enviado justamente para tal tarefa.
"Quem condenará os eleitos de Deus? É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós" (Rm 8.34).
Deus, portanto, considera todos os seus eleitos justificados, em virtude da obra redentora feita por Jesus Cristo em favor deles. Eles não mais podem ser condenados, pois a dívida foi paga, e a mesma dívida não pode ser paga duas vezes, pois isso seria injustiça de Deus. Deus, por questão de exatidão, não pode lançar na condenação nenhuma pessoa por quem Jesus Cristo morreu. Se ele fizesse isso, seria injusto consigo mesmo, pois estaria considerando nula uma obra tão importante que seu Filho veio fazer. Se ele veio morrer pelos pecados do seu povo, Deus já puniu o seu povo, pelos seus pecados. Ora, se Deus já puniu seu povo na morte de Jesus, por que iria puni-lo uma segunda vez? Como a mesma culpa pode ser paga duas vezes? A morte de Cristo, que é substitutiva, tira qualquer possibilidade de que alguém por quem ele veio morrer, receba de novo a condenação de seus pecados. É preciso que esta verdade seja devidamente entendida. A morte de Jesus Cristo na cruz em favor do seu povo é algo extremamente sério para ser anulada apenas pela incredulidade dos pecadores. Na verdade, todos os pecadores por quem Jesus morreu são, de fato, justificados, e não mais terão que pagar suas próprias culpas.
Todos os eleitos de Deus recebem a graciosa obra de justificação, e somente eles. Ninguém mais. Além disso, o texto diz que Deus considera plenamente satisfatório o que Cristo fez, pois é dito que é "Deus quem os justifica". Se Deus justifica, ninguém pode condenar. E a base dessa verdade, segundo o texto de Romanos 8.34 é o fato de Jesus Cristo ter morrido e resssucitado pelos eleitos de Deus.
A grande diferença entre as duas tradições é realmente vista quando elas estudam o texto básico sobre justificação, que é Romanos 5.12-19.
Quando tratamos da extensão da justificação, ambos, luteranos e reformados, vão para o mesmo texto supra-citado. A diferença entre as duas tradições não está na definição ou no conteúdo da doutrina da justificação, mas nas pressuposições contidas na extensão da doutrina da expiação, com as quais vamos estudar essa matéria.
A teologia luterana interpreta este texto do seguinte modo: "Pela desobediência de um, Adão, todos os homens foram tornados pecadores pela imputação, v.19a, e, por causa do pecado de Adão, a condenação da morte veio sobre todos os homens, v.18a."(35) Até este ponto ambas as tradições concordam perfeitamente. Contudo, quando Paulo começa a falar a respeito daqueles que são justificados, a diferença de interpretação logo surge. A teologia luterana interpreta o v.18b deste modo: "Porque é um fato que a ofensa de Adão resultou na condenação de morte para todos os homens; da mesma forma é um fato que a justiça de Cristo resultou na justificação de vida para todos os homens."(36) Todos os homens que estão debaixo da condenação de Adão, estão também debaixo da justificação de Cristo. Segundo a teologia luterana, Paulo está falando de um e do mesmo povo. Segundo a tradição luterana, este texto prova "conclusivamente que o julgamento gracioso original de Deus, pelo qual os pecadores são absolvidos e contados como justos, não é limitado aos crentes, mas cobre todos os homens. Por esta razão, ela é chamada justificação universal."(37)
A teologia reformada interpreta este mesmo texto de uma forma diferente. Ela assevera que Paulo está falando de dois povos diferentes neste texto. Ele está falando da "velha humanidade" em Adão e da "nova humanidade" em Cristo. Todos aqueles que estão debaixo da obra de Cristo um dia também estiveram debaixo da condenação de Adão, mas nem todos os que estão debaixo da condenação de Adão estão também sob a obra de Cristo. O "todos" em Adão não é equivalente ao "todos" em Cristo. Mas deve ser entendido que o "todos" em Cristo certamente recebem a "justificação que dá vida".

Ambos, luteranos e reformados, crêem que "todos" estão justificados, mas a diferença real é a respeito de quem Paulo está falando. Quem são os "todos"? Os luteranos dizem que eles são exatamente os mesmos que estiveram em Adão, mas os reformados dizem que eles não são exatamente os mesmos numericamente. Estas interpretações distintas fazem uma enorme diferença na extensão da justificação.

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