sábado, 8 de junho de 2013

Aspectos de uma espiritualidade luterana para nossos dias

Por Rafael Jácome
Fonte: Estudos Teológicos v.43, pags. 119 - 121

A seguir, compartilhamos alguns pensamentos a respeito de uma renovação da espiritualidade cristã luterana:

• Decisiva para uma maior concentração no tema espiritualidade é sua correta compreensão teológica. Exercícios espirituais não são obras meritórias nem precondição para a comunhão com Deus. São, isto sim, conseqüência prática da misericórdia de Deus e obra de seu Espírito. Na perspectiva da teologia luterana, o exercício espiritual torna-se exercício de liberdade, destituído de qualquer legalismo.
• Importante é dar forma atual aos fundamentos da espiritualidade prefigurados na praxis de Jesus: o ouvir da palavra, a oração, a comunhão, o testemunho e o engajamento. Fidelidade à tradição não se esgota na simples repristinação. É na reinterpretação que ela ganha vida e veracidade.
• Deve haver liberdade para a formatação pessoal e familiar da praxis pietatis, criando, assim, espaço para uma politeia equilibrada e adequada à situação pessoal e familiar. Como já dissemos, a espiritualidade deve ser espaço da liberdade evangélica que resiste ao legalismo e à uniformização autoritária.
• As diferentes politeias advindas de acentos teológicos diversos – espiritualidade tradicional, pietista-evangelical, sociopolítica, carismática, feminina, litúrgico-meditativa entre outras – devem se caracterizar pela aceitação e respeito mútuos e acentuar a unidade no fundamental.
• Espiritualidade realiza-se em quatro áreas: na vida pessoal, na comunhão familiar ou grupal, na comunhão da comunidade e na vida social. As formas devem ser transparentes para a vida em sua totalidade.
• Importante é a perspectiva ecumênica da espiritualidade. A tradição e os exercícios espirituais provindos de outras confissões cristãs podem enriquecer nossa praxis pietatis. Temos a aprender especialmente com a espiritualidade da Igreja Oriental, que conservou exercícios dos pais do deserto. A hesiquia pode – ainda hoje – ser alcançada com o método da “oração do coração”, também conhecida como “oração interior” ou “oração do coração de Jesus”. Podemos aprender igualmente com a espiritualidade católicoromana, especialmente com a vertente inaciana (exercícios espirituais). Valendo-se do discernimento espiritual, é possível, inclusive, valorizar formas provenientes de outras religiões. Especialmente nas fases de preparação à meditação, relaxamento e concentração, práticas ascéticas de outras religiões podem ser úteis.
• É preciso resgatar o valor do exercício para a espiritualidade luterana. Teologia luterana é teologia ascética, teologia da vida cristã sob as condições do cotidiano! Sem a disciplina diária do exercício espiritual, não haverá frutos a médio e longo prazo. É preciso que exercícios sejam treinados, realizados com perseverança e defendidos contra resistências internas e externas. Espiritualidade cristã não vive da necessidade esporádica, mas da regra e do exercício contínuo.
• A igreja luterana precisa disponibilizar a membros e não-membros guias espirituais capazes de treinar e acompanhar comunidades e cristãos individualmente. Especialmente pastoras e pastores precisam redescobrir sua função de ser espiritual, diretores/as espirituais de sua comunidades. Em linguagem monástica, eles/as são abades e abadessas de seu rebanho. Para esta tarefa deveriam ser preparados desde o estudo de teologia. Além disso, deveriam ter a possibilidade regular de “retirar-se para o deserto” (anacorese eremítica!) a fim de buscar renovação e aprofundamento de sua própria espiritualidade.
• Projetos na área da espiritualidade, cursos onde exercícios espirituais possam ser aprendidos e aprofundados, portanto, devem surgir com urgência. É preciso ensinar como iniciar uma prática espiritual pessoal e familiar; A partir de uma espiritualidade que acompanhe a biografia do cristão luterano desde a sua mais tenra infância, é possível surgir uma igreja cuja praxis conjugue fé e vida, espiritualidade e cotidiano.

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