sábado, 8 de junho de 2013

Formas históricas da espiritualidade cristã 1: A Igreja Antiga

Por Rafael Jácome
Fonte: Estudos Teológicos v. 43, pag 110

 Os três primeiros séculos da igreja cristã foram extremamente movimentados. As perseguições, as controvérsias teológicas, a luta contra as heresias marcaram esta época. Profundas mudanças advieram, porém, da súbita mudança do status da igreja: de igreja perseguida, ela tornou-se igreja imperial. Ser cidadão do império romano implicava a filiação à igreja cristã, fato que trouxe as massas à igreja. A secularização da igreja, conseqüência de seu novo status, provocou o fenômeno da anacorese, que levou muitos cristãos a procurarem uma vida ascética de isolamento no deserto. Desaparecido o martírio, a ascese (de askein – “exercício”) tornou-se o ideal de perfeição de vida cristã. Para os monges e monjas do deserto, esta escolha tornou-se a única possibilidade de viver a espiritualidade cristã com seriedade. O movimento do monaquismo, que já havia iniciado em 285 com a ida de Antonio (ou Antão) para o deserto egípcio, toma corpo com a organização da vida dos monges e monjas – que viviam como anacoretas (eremitas) ou cenobitas (conventuais).

  Fugindo da dipsiquia, a “divisão da alma”, eles procuram a monotropia – a concentração completa e permanente em apenas um: Deus. Referência bíblica é a palavra de Jesus a Marta: “pouco é necessário ou mesmo uma só coisa” (Lc 10.42; também Mt 6.33). Estar “concentrado em Deus” (mnemeeou) é a disposição fundamental dos monges e monjas. A monotropia monástica é, pois, motivada pelo desejo de alcançar a unidade entre doutrina e vivência da fé no cotidiano. Para atingir a monotropia, porém, são necessárias a tranqüilidade, a concentração, a solidão e o silêncio – em uma só palavra: a hesiquia, a “paz do coração”. O monge é, pois, antes de tudo, um hesicasta. A hesiquia, porém, é fruto de rigorosos exercícios espirituais, que podem levar o monge à experiência mística da teoria, a visão divina. Justamente o isolamento, o jejum, o estilo de vida reduzido ao mínimo necessário para a sobrevivência, a abstinência de alimentos e de atividade sexual, o rígido controle dos pensamentos, o controle das emoções, o silêncio, a penitência permanente, a meditação da Escritura, a oração incessante (1 Ts 5.17), o trabalho artesanal (“ora et labora”), a submissão a um guia espiritual, além do culto eucarístico diário, tornaram estes Abbas (pais) e Ammas (mães) referenciais de espiritualidade muito procurados pelos seus contemporâneos. Sua capacidade de discernimento espiritual e sua habilidade poimênica podem ser conferidas no Apophtegmata Patrum – coleção das sentenças dos pais/padres do deserto. 

Na espiritualidade dos pais do deserto, encontramos a sistematização dos exercícios espirituais da igreja antiga. Trata-se da praxis – o conjunto da ascese cristã, composto por palavra bíblica, oração, culto eucarístico, jejum e silêncio. Esta práxis era indiscutível e consenso na igreja antiga. De sua prática dependia a manutenção e o crescimento na fé. Havia, porém, possibilidades diferenciadas de realizar esta práxis. A partir das circunstâncias biográficas de cada cristão, a espiritualidade recebia uma forma individual. Tratava-se da politeia – originalmente o direito da polis ou o comportamento individual do polites, o cidadão. Deste último significado, provém o sentido eclesiástico: o comportamento individual do cristão na vivência de sua espiritualidade. Em outras palavras, a práxis individual, a vivência pessoal com a palavra bíblica, com a oração, com o culto, com o jejum e com o silêncio. Muitas sentenças do Apophtegmata Patrum iniciam com o pedido recorrente de consolentes: “Abba, diga-me uma palavra”; “Abba, mostra-me como posso ser salvo”; “Abba, o que posso fazer para agradar a Deus?”. São perguntas pela vivência concreta da fé, formuladas na esperança de que o Abbas revele algo de sua politeia, da prática pessoal de sua fé. Mas nem tudo podia ser revelado. Ao lado da práxis e da politeia, havia ainda o exercício
secreto ou meditação reservada chamada krypte melete. Lado mais íntimo da espiritualidade, baseava-se em Cl 3.3 – “vossa vida está oculta em Cristo”. A krypte melete não dependia de circunstâncias exteriores – podia ser preservada em qualquer situação existencial. Sobre ela não se falava, nem era objeto de reflexão.

   Por que incluímos em nossa reflexão a espiritualidade da Igreja Antiga na forma desenvolvida pelos pais e mães do deserto? Sua importância advém do fato de terem formulado distinções espirituais fundamentais que continuam válidas hoje. Acima de tudo, porém, eles nos perguntam pela nossa praxis, ou seja, pelos exercícios espirituais que entre nós são consensuais e incontestáveis e que, por isso, são transmitidas e ensinadas às novas gerações e aos neófitos; perguntam, igualmente, pela politeia, ou seja, pela formatação pessoal e individual da práxis espiritual de minha igreja – como eu lido com o culto, com a eucaristia, com a vivência diária do batismo, com o silêncio, com o jejum, com a palavra de Deus; perguntam, por fim, pela krypte melete, por aquilo que me é absolutamente sagrado, por aquilo que pode me fortificar nos momentos limítrofes de minha existência, aquilo que guardo em segredo como meu maior tesouro. São, portanto, perguntas muito concretas e atuais que nos advêm destas aparentemente tão distantes personalidades do deserto egípcio.

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