sábado, 8 de junho de 2013

Formas históricas da espiritualidade cristã - 2: Martim Lutero

Por Rafael Jácome
Fonte: Estudos Teológicos  v. 43, pag 111

 Martim Lutero

  Assim como a teologia, também a espiritualidade desenvolveu-se, adaptou-se durante a história da igreja; recebeu a cor das diversas confissões, permanecendo, porém, reconhecível em suas formas fundamentais. Perguntamos, agora, como as formas fundamentais da espiritualidade cristã foram reinterpretadas pelos reformadores, especialmente por Lutero. O que ele recebeu – o que lhe foi transmitido? Recebeu as formas fundamentais da espiritualidade medieval: meditatio, oratio, tentatio, sacramenta, caritas. Lutero, como monge agostiniano-eremita, recebeu instrução sobre métodos de meditação de textos da Escritura, sobre como lutar contra as tentações, sobre como viver com os sete sacramentos, sobretudo com a eucaristia, sobre a vivência do amor e da solidariedade cristãs. Esta foi a praxis tradicional recebida por Lutero. Este era o conjunto de exercícios que perfazia a espiritualidade da igreja ocidental no início do séc. XVI. Cabe agora a pergunta sobre como esta praxis tradicional interagiu com a teologia reformatória e como ele estruturou a sua politeia, sua prática pessoal. 

  Lutero submeteu a tradição da praxis pietatis medieval ao centro da teologia reformatória: nós somos aceitos por Deus não por causa de méritos ou obras religiosas ou morais, mas “recebemos remissão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu por nós e que por sua causa os pecados nos são perdoados e nos são dadas justiça e vida eterna” (CA IV). A partir desta compreensão teológica, Lutero reorganiza a praxis tradicional e sua politeia pessoal. Especialmente na prática da meditatio ocorre a reorientação. A tradição havia estabelecido a seqüência lectio-meditatio-oratiocontemplatio (unio). Lutero reordena a seqüência em oratio-meditatio-tentatio. Ele inicia com a oração e inclui a lectio na própria meditatio. Meditação é sempre meditação da Palavra. Significativa foi a substituição da contemplatio – a visão mística de Deus e a união com ele – pela tentatio – a experiência da presença de Deus mediada pela Palavra na situação de tentação. Objetivo maior da meditação passa a ser a vivência aprovada da fé nas ambigüidades do cotidiano. Lutero, evidentemente, não descarta a contemplatio. Ele, porém, não via a possibilidade de alcançá-la através de um método de meditação – ela sempre é presente de Deus – não pode ser “produzida” por exercícios.

  Lutero arrola os cinco pilares da praxis pietatis evangélica nos Artigos de Esmalcalda (III/4): “[...] Deus é exuberantemente rico em sua graça. Primeiro, mediante a palavra falada (“mündlich Wort” – argumento antientusiasta!), em que é pregada remissão de pecados em todo o mundo. Esse é o ofício próprio do Evangelho. Em segundo lugar, pelo batismo; em terceiro, pelo santo sacramento do altar; em quarto, mediante o poder das chaves e também per mutuum colloquium et consolationem fratrum” (através do mútuo colóquio e consolação dos irmãos). Portanto, para poder permanecer firme na fé no ínterim entre batismo e morte, o cristão luterano recebe vários exercícios espirituais que perfazem a praxis pietatis reconhecida e consensual em nossa igreja: o culto, onde a palavra é pregada; os sacramentos – batismo, confissão e santa ceia – como meios de graça, e a poimênica fraterna nas diversas situações existenciais.
Essa praxis não era apenas comunitária, eclesiástica – ela se traduzia em cada lar luterano em politeia familiar. Uma das instituições mais sólidas da igreja luterana ao longo de séculos foi o culto familiar – o assim chamado “Hausgottesdienst”. Ao longo da história, o “Hausgottesdienst” transformou-se em “Hausandacht”, a “devoção familiar”, versão reduzida da primeira. O “Hausgottesdienst” consistia em hino, leitura bíblica, oração e leitura de um trecho do Catecismo Menor. O culto familiar adicionava, portanto, mais quatro elementos importantes à praxis luterana. Temos, pois, nove elementos básicos que perfazem a riqueza da espiritualidade evangélicoluterana: o culto, os sacramentos – batismo, confissão e santa ceia – a poimênica fraterna, o hino evangélico (hinário), a leitura bíblica, a oração (livros de orações), o Catecismo Menor (doutrina elementar). A partir desta praxis, cada cristão e cada família luterana tinha a tarefa de estruturar a sua politeia pessoal e familiar e sua meditação particular (krypte melete).

  Permanece aberta ainda a pergunta pela politeia de Lutero. Ele pouco se pronunciou sobre a forma e o exercício de sua espiritualidade. Percebe-se que muito era simplesmente subentendido. De forma fragmentária, porém, temos algumas indicações interessantes, especialmente sobre sua meditação do catecismo (“Katechismusmeditation”) No prefácio ao Catecismo Maior, Lutero escreve: 

[...] faço como criança a que se ensina o Catecismo: de manhã, e quando quer que tenha tempo, leio e profiro, palavra por palavra, o Pai Nosso, os Dez Mandamentos, o Credo, alguns salmos, etc. Tenho de continuar diariamente a ler e estudar, e ainda assim, não me saio como quisera, e devo permanecer criança e aluno do Catecismo. Também me fico prazerosamente assim. [...] existe multiforme proveito e fruto em ler e exercitá-lo todos os dias em pensamento e recitação. É que o Espírito Santo está presente com esse ler, recitar e meditar, e concede luz e devoção sempre nova e mais abundante, de tal forma que a coisa de dia em dia melhora em saber e é recebida com apreço cada vez maior. A meditação do catecismo era muito mais do que simples leitura e reflexão cognitiva. Ela estava estruturada metodologicamente como exercício meditativo. No escrito “Como se deve orar, para o mestre Pedro Barbeiro” (1535), 
  
  Lutero apresenta ao amigo leigo o seu método de meditação, o método do “vierfaches Kränzlein”, a “coroazinha quádrupla”. Este método constrói a meditação em três partes. Antes de iniciar a meditação propriamente dita, há um momento de concentração e pacificação interior, no qual devem silenciar os pensamentos: “[...] depois de aquecido o coração ... encontrando-se assim a si mesmo, ajoelhe-se ou fique parado, com as mãos postas em oração e os olhos voltados para o céu” (PEC, p. 319). Seguem os Dez Mandamentos e o Credo Apostólico ou palavras bíblicas que se conhece de cor – esta parte também pode ser posposta ou omitida quando há pouco tempo à disposição. A parte principal do exercício espiritual tem como conteúdo o Pai Nosso. Cada mandamento, cada artigo, cada petição é recitada e depois meditada a partir das quatro perguntas da “coroazinha quádrupla”:
a) O que eu aprendo? (doctrina),
b) pelo que tenho a agradecer? (gratiarum actio),
c) o que tenho a confessar? (confessio) e
d) pelo que quero pedir? (oratio).

  Assim, Lutero elaborou um exercício espiritual composto por concentração, meditação e oração. Importante é observar que esta Meditação do Catecismo era inédita na história da espiritualidade.
Chama especial atenção que Lutero instrui um leigo, pai de família, em seu método da Meditação do Catecismo. Na verdade, ele esperava muito dos pais como responsáveis por uma educação para a vida e para a fé. Argumentando a partir do quarto mandamento, ele chama pai e mãe de “Hausbischöfe” (bispos familiares). No Catecismo Maior, ele escreve sobre a responsabilidade espiritual dos mesmos:

Cumpre [...] [aos pais] ponderar no fato de que devem obediência a Deus, e acima de qualquer outra coisa desempenhar-se-ão, de coração e fielmente, dos encargos de seu ofício, não cuidando apenas do sustento material de filhos, empregados, súditos etc, porém sobretudo educando-os para louvor e honra a Deus. [...] Saiba, por conseguinte, cada qual que é seu dever, sob pena de perder a graça divina, educar seus filhos, acima de tudo, no temor e conhecimento de Deus, e, se forem aptos, dar-lhes a oportunidade para aprender e estudar, a fim de que possam ser úteis nas necessidades que houver. A educação para vida e para a fé acontecia no seio familiar na convivência cotidiana do lar. Os pais devem zelar para que seus filhos e empregados saibam o Catecismo Menor de cor, além de versículos bíblicos selecionados e das orações previstas para o culto familiar. Diz ele: “Por isso é dever de todo pai de família argüir, pelo menos uma vez por semana, um por um, seus filhos e empregados domésticos, e tomar-lhes a lição, para verificar o que sabem a respeito ou estão aprendendo [...].” Os professores não substituem os pais e a escola não substitui o lar – apenas complementam o ensino cristão familiar.

  A espiritualidade familiar vislumbrada por Lutero, porém, encontrou grandes obstáculos. As visitações realizadas em 1528 e 1529 revelaram grande miséria espiritual entre o povo. Sobre ela, Lutero escreve:

   O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E,   infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra de ensino. Não obstante, todos pretendem o nome de  cristãos, estão batizados e fazem uso dos santos sacramentos. Não sabem nem o Pai Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos. Vão vivendo como os brutos e irracionais suínos.

  Portanto, não devemos imaginar que todas as famílias evangélicas tinham condições espirituais de cumprir o planejado pelo reformador. Lutero reclamava muito que a pregação do evangelho não trazia os frutos na medida desejada. A frustração muitas vezes o deixou deprimido. Paulatinamente, porém, ao longo de décadas, a praxis pietatis elaborada por Lutero conseguiu se impor na vida familiar evangélica. Em grande medida, participava-se do culto comunitário dominical e realizava-se o culto familiar diário, lia-se a Bíblia, fazia-se uso da confissão individual ou da confissão coletiva na liturgia eucarística, recebia-se regularmente a santa ceia, diariamente procurava-se permanecer na graça e no compromisso do batismo, cantavam-se os corais evangélicos – a maioria de cor, conhecia-se o hinário, que ao lado de outros também era livro de orações, sabia-se o Catecismo Menor de cor, além de versículos bíblicos selecionados. O ciclo da natureza e o ritmo do ano litúrgico eram a moldura desta espiritualidade. Esta praxis, com sua diversificação na politeia individual e familiar, gozou de estabilidade até a metade do século XX, também na IECLB.

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