sexta-feira, 7 de junho de 2013

Fundamentos da espiritualidade cristã - 2: A igreja neotestamentária

Por Rafael Jácome
fonte: Estudos Teológicos v. 43 pag. 107

  Diferentemente do que ocorreu com figuras centrais de outras religiões, a espiritualidade de Jesus não se tornou a base da fé das comunidades cristãs. Paradoxalmente, a base de fé e doutrina da igreja tornou-se sua morte, interpretada como a morte do “servo sofredor” de Dêutero-Isaías, e sua ressurreição, a qual foi assimilada doxologicamente – como louvor ao triúno Deus. Dito isto, estamos diante do culto da comunidade primitiva, a forma fundamental e a origem de sua espiritualidade. Precondição para essa reinterpretação foi o ocorrido em Pentecostes. Pentecostes significa: Jesus Cristo, o crucificado, continua ativo na história; sua palavra, sua preocupação com os seus e com o mundo não cessaram,  mas continuam na obra de seu Espírito. Esta certeza transforma e inspira os antes assustados discípulos – eles se tornam christianoi e testemunham a realidade da ressurreição por todo o mundo conhecido da época. 

   Fundamental para a espiritualidade da comunidade primitiva foi, igualmente, a compreensão de que Cristo, sentado à destra de Deus, intercede como sacerdote e advogado pelos seres humanos diante de Deus. Os seres humanos, porém, somente podem contar com esta intercessão se confessarem Jesus como kyrios, o crucificado como o ressurreto, o terreno como o glorificado. Esta confissão os inclui na comunidade que espera pela volta iminente do Senhor, que se entende como seu corpo no qual o Espírito se manifesta, que celebra a Santa Ceia como Eucaristia e é edificada pelos múltiplos carismas. A inclusão nesta comunhão acontece pelo batismo, cuja simbologia deve ser vivida diariamente. Assim, a espiritualidade da comunidade primitiva define-se como doxológica e eclesiástica – baseada no culto e na vida em comunhão. Os elementos que a compõe estão arrolados em At 2.42-47. Neste texto, temos diante de nós o ícone da igreja primitiva. Nele vemos a espiritualidade de Jesus – ouvir, orar, comungar, testemunhar e agir – transformada em espiritualidade comunitária:
Perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo os produtos entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos. Os espaços sociais nos quais esta espiritualidade é vivida são o templo, as casas dos cristãos e a cidade. O uso do templo restringiu-se à comunidade de Jerusalém, desaparecendo em 70 d.C. No Novo Testamento, comunidade cristã é sinônimo de “casa”. Pela pesquisa histórica, sabemos que, no mundo greco-romano até 150 d.C., a igreja utilizava apenas as casas de seus membros para os cultos e reuniões (At 5.42; 20.20). Entre 150 e 250 d.C., casas foram adaptadas para servirem exclusivamente como lugar de culto. A partir de 250 d.C., com o apoio financeiro dos imperadores Constantino e Teodósio, a igreja passa a contar com igrejas para seus cultos. Surgem as basílicas como espaço sacro.
A “casa” – no grego oikos ou oikia – para as comunidades neotestamentárias também era sinônimo de “família”. Aliás, interessante é observar que o Novo Testamento não conhece nenhuma palavra específica para designar a “família”. São os termos oikos ou oikia que designam o núcleo familiar, a parentela/tribo ou a residência. A oikia/oikos como núcleo familiar, que incluía também os escravos e trabalhadores, tornou-se a célula-mãe da igreja cristã e principal responsável por sua disseminação no mundo conhecido da época. O Novo Testamento conta várias conversões e batismos de “casas”, isto é, de famílias inteiras (At 11.14; 16.15,31.34; 18.8; 1 Co 1.16; Fl 2; 2 Tm 1.16; 4.19). Mesmo que houvesse cristãos individuais, onde o cônjuge ou o restante da família permaneceu não-cristão (1 Co 7.10ss), há um claro acento na compreensão do núcleo comunitário como “família”. É provável que as comunidades familiares não ultrapassassem 30 a 40 pessoas. As pequenas comunidades familiares auxiliavam na superação do anonimato da grande cidade. Podiam preocupar-se com a fé e a vida de seus membros. O perfil diaconal das igrejas familiares exercia grande atração sobre os contemporâneos não-cristãos por se contraporem à desumanização das grandes cidades.

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