domingo, 9 de junho de 2013

Heródoto, os deuses do Crescente fértil e a sexualidade.

Por Rafael Jácome
Adaptado do Texto A Tormenta na Ásia de Herbert Wendel )


     Heródoto foi um grande viajante e um monumental historiador da sua  época. Conseguiu retratar vários monumentos históricos e as culturas das antigas civilizações. Entre seus relatos (às vezes contestados) encontramos a da Torre de Babel, que o pai dos repórteres descreve-o assim:

     Construção consistente em sete torres sobrepostas e encaixadas uma na outra. A base tem noventa metros e cada torre seguinte é menor que a precedente. De fora há uma escada que sobe em espiral em torno de todas as torres, no meio dela há um espaço com bancos onde os que sobem podem repousar. No topo da torre repousava o templo dedicado a Marduk, Rei dos Deuses. O templo, todo azul e ouro, brilhava ao sol. O monumento havia sofrido às mãos dos soldados de Xerxes e perdera parte de sua imponência brilhante. Não obstante, os sacerdotes e astrônomos caldeus, encarregados da conservação do templo, puderam contar ao viajante heleno interessantes pormenores.

     No meio do templo, assim soube Heródoto, há uma grande cama ricamente arrumada e a seu lado está uma mesinha de ouro. A mulher escolhida pelo deus dorme todas as noites naquela cama. Aquela mulher que, segundo as informações dos sacerdotes, não podia ter relações com nenhum homem mortal e tinha que estar permanentemente no leito sacrossanto em prontidão, pois, segundo os sacerdotes, embora eu não o possa crer, eles dizem que o deus (Marduk) vem pessoalmente ao templo, repousa no leito e de noite tranca-se em companhia da mulher.

     Tarefa muito mais desagradável esperava as moças babilônicas no templo da deusa da fertilidade, Milita. De acordo com Heródoto o mais repugnante hábito desta terra. As moças tinham que sentar-se no parque pertencente ao templo,  deixar passagem entre as filas e esperar a chegada de forasteiros. Os forasteiros passavam entre as moças e escolhiam a que lhes agradava, conta Heródoto. A moça escolhida, o homem lançava algum dinheiro ao colo e ela era obrigada a acompanhá-lo ao templo, entregando-se ao homem. As feias ficavam muito tempo no parque, por vezes dois a três anos – porque não conseguiam satisfazer a lei. As bonitas voltavam logo ao lar e não precisavam submeter-se mais, a menos que se casassem.

     O que Heródoto observou de cenho franzino no templo de Milita era apenas reflexo atenuado de um antiquíssimo e muitas vezes mal interpretado hábito, segundo o qual a divindade, por intermédio de um homem anônimo, exercia o direito de “primeira noite”,  a que tinha direito em relação a todas as moças ao fim da puberdade. Também na cidade bíblica de Sodoma existia a “prostituição da hospitalidade”, embora sob outra forma, como  sabemos, através da história de Lot e suas filhas ao receberem os enviados do Senhor.

     As moças ainda tinham outros dissabores em Babel. Os pais não as faziam casar da maneira usual em outras regiões – levavam-nas ao mercado e vendiam-nas em leilão, sendo que o produto revertia a uma caixa comum. Isso tinha seu motivo: jovens casadoiros, mas que não possuíssem meios suficientes para comprar uma noiva bonita, recebiam da caixa uma compensação, caso concordassem em levar uma jovem menos atraente. Costume muito sábio, comentou Heródoto, esta regulamentação casamenteira, pois destarte as meninas bonitas podem ajudar as feias e defeituosas a arranjarem um marido. Quem sabe lá se as babilônias compartilhavam dessa opinião? Na caliça das escavações encontraram uma tabuinha de barro em que uma jovem apaixonada gravou, há três mil anos, a queixa eterna dos namorados “Oh, como sou triste!” Se o relato de Heródoto corresponde à verdade, podemos bem compreender o motivo daquele queixume.

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