sábado, 8 de junho de 2013

Luteranos e calvinistas: diferenças entre a justificação pela fé - Final

Por Rafael Jácome
Fonte: Heber Carlos de Campos

6. Diferença Sobre a Ordo Salutis

Na teologia luterana a ordo salutis, geralmente falando, começa com a obra da justificação. "Então, quando a pessoa é justificada, ela é também renovada e santificada pelo Espírito Santo, da qual (justificação) a renovação e a santificação, e os frutos das boas obras provém."(48) Lutero também segue uma ordo salutis parecida na explicação do artigo terceiro de seus catecismos. Pieper diz que nessa explicação e "em todas as passagens na qual ele (Lutero) chama a doutrina da justificação, como a doutrina central, e ao redor da qual todas as outras doutrinas estão agrupadas, seja como antecedens ou consequens."(49) A regeneração, ou a renovação é algo posterior à fé justificante. A Apologia da Confissão de Augsburgo, preparada por Melanchton diz que "quando nós cremos, o Espírito Santo desperta os nossos corações através da palavra de Cristo."(50) Portanto, o despertamento (que é equivalente à regeneração segundo o entendimento da teologia reformada) acontece como um resultado da fé, na tradição luterana. Isto está claro em outros lugares: "Visto que a fé traz o Espírito Santo e produz a nova vida em nossos corações, ela deve também produzir os impulsos espirituais no coração ... Após termos sido justificados e regenerados pela fé, portanto, começamos a temer e amar a Deus..."(51) Em outro lugar ainda diz: "A fé somente aceita o perdão dos pecados, justifica e regenera."(52) E ainda: "A fé é o verdadeiro conhecimento de Cristo, ela usa suas bênçãos e ela regenera nossos corações."(53)
Portanto, na teologia luterana, a fé é o que causa a regeneração. O novo nascimento também é produto da fé justificadora. Os símbolos luteranos dizem que "nós não podemos guardar a lei a menos que tenhamos sido nascidos de novo pela fé em Cristo."(54) É verdade que é também dito nas Confissões que a regeneração é obra do Espírito, mas tem que ser entendido que a regeneração do Espírito é mediante a fé. É uma ordo salutis diferente da esposada pela fé reformada.
Na fé reformada a ordo salutis é totalmente diferente. A primeira coisa a ser considerada nela é a regeneração (que normalmente nos adultos acontece concomitantemente com a pregação da Palavra), que é a implantação do princípio de vida, e então, a pessoa nasce de novo, sendo habilitada a crer em Cristo, a fim de ser justificada subjetivamente. A fé é o resultado do ato regenerador de Deus, não a causa que leva o Espírito Santo a operar a regeneração. Por esta razão, na fé reformada, os pequeninos não são batizados a fim de serem justificados. Eles podem ser objeto da obra regeneradora do Espírito Santo antes de terem a fé justificadora. Sendo objeto da obra regeneradora de Deus, quando ouvem a Palavra e a entendem em alguma medida, crêem no seu Redentor. A teologia reformada segue geralmente uma forma mais desenvolvida da ordo salutis, incipiente em Romanos 8.30.

Algumas Conclusões

Nas partes em que diferem:

1. As diferenças entre ambas as tradições não são unicamente as de interpretação de textos relacionados à justificação, mas estão, sobretudo, nas suas pressuposições teológicas.
2. Ambas as tradições possuem uma estrutura teológica bastante consistente, se as entendemos à luz de sua própria hermenêutica e pressuposições.

Nas partes em que concordam:

3. Ambas as tradições, na formulação de sua doutrina sobre a justificação, lutaram contra o mesmo inimigo, a teologia da Igreja de Roma. O nascedouro dessa doutrina tem a mesma raíz em ambas as tradições.

4. Ambas as tradições sempre concordam nos pontos onde o inimigo comum foi a a teologia da Igreja de Roma com respeito à doutrina da justificação.

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